Razão e Ser (texto escrito no ano de 2004)



Escrevo este texto pois sei que não sou o único, e nem, naturalmente, o primeiro a reivindicar uma convergência entre mundos separados, a meu ver, por muita falta de conhecimento.
O livro que o filósofo analítico Thomas Nagel consagrou recentemente às grandes questões supostamente características da filosofia continental, revela-se uma convergência entre as teorias de certos filósofos que pertencem à tradição analítica (Kuhn, Feyerabend) e as de filósofos «continentais» como Michel Foucault. Estas convergências são, por vezes, explicitamente reivindicadas. Wittgenstein é apresentado como traço de união entre os analíticos e os hermeneutas. Rorty, que parece ter-se empenhado, através dos seus escritos sobre o «pragmatismo», em impor Heidegger e Derrida aos seus colegas anglo-saxónicos, invoca o testemunho do público francês, publicando mesmo em França uma nota crítica do livro de Putman. E se os ataques que MacIntyre ou Leo Strauss fazem a pensadores como Nietzsche estão a meu ver justificados, na medida em que, Nietzsche decai, é certo, num certo isolamento desesperante (mas não é isso tão típico nos poetas?!) que facilmente e, mesmo que de forma, repito, um tanto errónea e apressada (ou pelo menos nunca consensual - estou intimamente convencido que este autor não deveria ser avaliado sob cânones "normais" ou da "racionalidade filosófica" mas, sim, artísticos), teremos de concluir que a sua proposta teórica não é passível à universalidade, quer em termos políticos ou de cidadania.
Explico-me: não se reflecte no que penso que deve ser a democracia, assente na argumentação racional.
Considero, sim, e não me assumindo como um "essencialista" no sentido duro do termo, que são necessários padrões morais se queremos manter o que, possivelmente, mais prezamos: as nossas famílias, os nossos filhos ou os nossos amigos. Se não existisse um padrão de valores (e aqui vou partir do princípio que tal inexistência seria possível), como educaríamos os nossos filhos? Sem uma referência ou padrão na educação (mesmo que linguística), ou sem sabermos a educação que outros pais estariam a dar aos seus filhos, o mais certo é que cada casal de pais, por uma questão de conservação ou sobrevivência, estimulasse os seus filhos a altercar hostilmente contra os outros, a não serem "lorpas" ou "bonzinhos", a não darem importância a manifestações altruístas, a tudo fazer para derrubar os outros e utilizando o fraco argumento de que, se não o fizerem, eles próprios seriam ultrapassados ou "pisados".
Devo confessar que a ideia de Padrão me é muito mais simpática quando é entendida como algo de orgânico, funcional e espontâneo. Digo isto pois, por vezes, sob epitáfio ou desígnio anti-relativista, parece-me que esta ideia adquire contornos de exuberância metafísica, lembrando Revoluções que de ético só têm o que no estético está sempre em vias de forjadura: o deleite no que de humano têm as paixões, e o lúgubre do que de thanatos tem o instinto.
É por isso que a leitura dos "relativistas" Levinas ou Derrida (devo confessar que, sobretudo a deste último, é penosa), me proporciona uma abertura intelectual ímpar, espiritual mesmo. E para aqueles que, a propósito do "retorno das religiões" e, particularmente aqueles que acreditavam, ingenuamente, que uma alternativa opunha de um lado a Religião e, do outro, a Razão, as Luzes, a Ciência, a Crítica (marxista ou nietzschiana, a psicanálise e herdeiros), como se a existência de uma estivesse condicio-nada ao desaparecimento da outra; tais "relativistas", de forma tão perspicaz, mostram-nos quão absurda é esta dualidade (ou mais esta!) , pois na existência de um logos fixo, as várias racionalidades, mais que contraditórias tornam-se "equipotentes", no sentido de não poderem umas viver sem as outras, e dento de um espaço linguístico que reclama, sempre, a contingência do referente.
Claro que este argumento, no qual - e por mera opção hermenêutica -, me fiz acompanhar por Derrida e Levinas, não é isente de objecções. Reconheço nele o que o relativismo tem de assustador, e para o qual a única saída seria a adopção do - um tanto antinómico - relativismo mitigado: dizer que "o único valor aceitável é a tolerância", é voltar ao que os não essencialistas, como eu próprio me vou, agora, assumir, pretendem negar: o logos fixo. Se fossemos estritamente relativistas, nem sequer a tolerância poderia ser apresentada como critério ou valor fixo, podendo qualquer um, e quando entendesse, não ser tolerante, sem qualquer necessidade de sentir remorsos ou o que chamamos de peso de consciência. Aliás, isso da consciência, dever ou virtude também seriam conceitos relativos.
Devo dizer que não é a mero reboque que neste argumento me faço acompanhar por pensadores de timbre marcadamente judaico-cristão, (sem que no entanto os seus fundamentos se afastem da argumentação filosófica).
A tolerância, o respeito e a responsabilidade, dificilmente surgem em alguém que não se sente devedor de algo. Ser-se responsável pelo outro, ser-se tolerante para com o outro implica a negação de qualquer vontade de domínio ou imposição dogmática.
É meu ver que o sentimento do respeito passa, também, pelo reconhecimento de que há coisas que nunca poderemos representar ou abranger completamente. Exemplifico: dificilmente alguém sente mais respeito por uma pedra do que sente por um ser humano. Nem mesmo os ecologistas mais aguerridos! Acredito que é mais fácil (pelo menos é-o para mim) representar uma chávena de café do que uma pessoa que comigo partilha momentos de conversa, carinho e ternura, ou então me rejeita sem que para tal consiga encontrar explicação.
Não será mais fácil sentir respeito por alguém que nos olha nos olhos, como que em súplica, do que senti-lo por alguém que nos tenta impor algo ou nos agride? Para os crentes, Quem merecerá mais respeito que o Deus do amor, do caminho, da palavra e da vida? Haverá realidade mais misteriosa que esta?
Trata-se de temor, é certo, mas também de uma vontade de acolhimento perante o mistério, e de uma forma que podemos assumir como positiva. Quero compreender a minha crença, dizia S. Anselmo
Nos relatos de guerra, frequentemente os soldados referem a dificuldade (ou mesmo incapacidade) de abater o inimigo quando este os olha nos olhos. Acredito mesmo que a melhor forma de escaparmos à morte face a uma situação em que um assaltante descontrolado nos aponta uma arma é, precisamente, olhando-o nos olhos.
O que me leva a questionar os tópicos da filosofia moderna é a ânsia da certeza que acentua no saber: a certeza, as condições de possibilidade, a preocupação de encontrar um modo técnico de pensar sobre as coisas, de as dominar, sintetizar numa totalidade em que o O/outro se torna no mesmo. Kant será uma honrosa excepção.
Deus é mistério e o homem também o é, assim como o é o Ser. E é precisamente em nome do Ser que o homem é uma realidade infinita. Não uma realidade muitíssimo complexa, mas uma realidade infinitamente complexa. A nossa finitude comporta algo de infinito que é irredutível a qualquer forma de representação discursiva.
O que vemos no olhar do outro? No mínimo, vemos pilhas de átomos e moléculas, vemos uma história pessoal, intencionalidades... no máximo, vemos toda uma história, todo um mundo linguístico intimamente paradoxal e rico, toda uma tradição e toda uma dívida. A essa tradição devemos-lhe a própria argumentação racional. A tolerância torna-se assim não só um valor universal como, assim entendida, não nos permite ser tolerantes para com quem atenta contra o ser/Ser: o terrorismo, o assassínio, o aborto ou a eutanásia poderão assim ser perspectivados.
No que toca a Deus, que melhor forma de O considerar senão na relação estabelecida com os outros? E que melhor forma de considerar o outro do que ter sempre presente dois aspectos cruciais: que não só a representação sob os cânones positivistas ou racionalistas (fenomenologistas ou historicistas) é de facto impossível, como é de todo desajustada! Indo ao escopo do pensamento de Heidegger, que tão pertinentemente sublinhou a diferença ontológica entre Ser e ente, se o objectivo é dominar a natureza, o resultado está à vista, eventos como o holocausto derivam desta mentalidade tecnológica, de um pensar frio.
Que melhor forma de ter contacto com Deus que a constante procura de respeito pela alteridade do outro, ou vermos no outro uma alteridade de facto? Assim como, termos presente, sempre, o que já escrevia Dostoyevsky em Crime e Castigo, de que "somos todos responsáveis por todos e eu mais do que ninguém". Haverá melhor forma de concretizar moralidade, religiosidade ou actividade mística que ter ininterruptamente presente que o O/outro implica uma abertura ao infinito, uma possibilidade ex-tática irredutível à concatenação em "formas" idiossincráticas e que ainda por cima são tidas como apriorísticas? Reporto-me aqui a Kant e Descartes, mesmo que o primeiro tenha sido bem mais humilde.
Para quem acusa Derrida ou Levinas de falta de universalidade ou de arautos do anti-iluminismo, a acusação poderá cair em vão. Haverá melhor universalismo que o garante de responsabilidade e respeito pelo outro, conferindo-lhe assentimento qua mistério avesso à representação teórico-técnica?
Autores como Derrida ou Heidegger ( pela poesia - e daí algum desconto -) ou Popper (pela via epistemológica e magistral escrita), mais não fazem que restituir à filosofia a sua vocação crítica, coisa aparentemente simples: a capacidade de mover as palas dos olhos e não ter medo de olhar para trás: remexer tudo se possível! Virar as palavras de pernas para o ar e com elas fazer piruetas, mas sem grandes esperanças de montar o puzzle completo, desde que norteados por uma asseveração intimamente moral ou de prática moral! E isto não tem, necessariamente, de ser assustador.
Karl Popper é um pensador que há muito tempo "adoptei". Partilho das suas ideias de Estádo mínimo - é preferível a liberddade à pseudo-justiça social ou pseudoproteccionismo (que, a ser realizável, e Heieck viu isso bem, nos coarta a liberdade e torna-nos trôpegos - assim como dos seus consequentes ataques ao historicismo, colectivismo, utopismo e totalitarismo. Melhor que ninguém, este autor soube apontar os pensadores a quem estes "ismos" são devedores, colocando a razão no seu devido lugar, e resolvendo de forma magistral a bifurcação metafísica e positivista entre ciências naturais e sociais. Popper foi quem melhor desmascarou tanto o elitismo hegemónico de Augusto Conte como os "sucessores" do Círculo de Viena, desmascarando também uma certa retórica moralizante e de timbre farisaica.
Parece-me importante salientar o risco que a racionalidade crítica de Popper, juntamente com a sua crítica ao utopismo, incorra numa má interpretação e transversão de racionalidade crítica em racionalidade meramente funcional, ou, então, num individualismo racionalista e dogmático típico das filosofias e democracias velhas. Que os seus brilhantes escritos sejam usados como contraponto aos mal-ditos "perspectivistas" (não é consensual que o sejam) Nietzsche, Heidegger ou Derrida - filósofos parricidas e obscuros que nem vale a pena serem lidos.
Quando Nietzsche afirma que "se a moralidade não é mais que uma expressão da vontade, a minha moralidade só pode ser o que a minha vontade cria. Não há pois lugar para ficções como direitos naturais, felicidade e fundamentação racional. A vontade deve substituir a razão constituindo o sujeito moral autónomo", todas estas asseverações acabam por sofrer do mesmo erro cometido pelos filósofos iluministas: uma espécie de procura - individualista - do inefável ou da pureza. O prespectivismo de Nietzsche poderá ser encarado como um erro de pensarmos que cada um cria as suas normas - é possivelmente o mesmo erro dos iluministas acreditarem que há uma espécie de verdade interior - não se tendo apercebido que estas normas são muito mais fruto de uma linguagem assimilada como forma de vida. Assim entendido, a linguagem é - na medida em que, devo dizer, custa-me aceitar a gramática universal - contingente. E nisso Nietzsche não falhou, sobretudo a ver por uma imensidade de filósofos, analíticos ou continentais que, reconhecendo ou não a dívida, assumiram esta contingência, mesmo que, com Popper ou Johnn Searle, resida nas teorias objectivas, isto é, ontologicamente subjectivas mas epistemicamente objectivas.
Porque não entender Nietzsche, e só digo isto na medida em que, em mim, essa interpretação torna-se possível, como alguém que vem dizer-nos que Deus é absoluto, sim, mas em abertura?
Não quero aqui colocar novos logismos neste pensador...
Lamento que muitos teóricos, bem intencionados, acabem por contribuir para uma cisão que os grandes filósofos não só rejeitam como não lhes passa pela cabeça o fazerem.
Quanto à razão, e finalizo, é minha convicção que só lhe resta duas vias, para que possa convergir - pois ela ainda se quer "unitária" - num só caminho na abertura:
Primeira via: abdicar da arrogância fatal que a levou ao racionalismo dogmático,
Segunda via: recusaro histérico, desesperado e amoral niilismo emotivista,
A abertura: retomar a tão legítima ambição da busca, sempre inacabada, do bem e da verdade.
É isto que procuro fazer, era isso que gostaria que o leitor fizesse. Popper fê-lo. O recém desaparecido e extraordinário Papa João Paulo II também, pois mesmo na condição de procurador da Verdade, soube ver Nesta sinónimo de incessante busca, de diálogo e esperança, de abertura crítica, de comunhão com a tradição, com a filosofia e a metafísica, com as demais religiões...
É este o caminho da filosofia. Impelir-nos à verdade, ao bem e à esperança.
Recordo as virtudes teologais Fé, Esperança e Caridade.
Porque a ausência de um conceito fixo não implica, necessariamente, a ausência de substância.
O professor de filosofia Artur Moura
O livro que o filósofo analítico Thomas Nagel consagrou recentemente às grandes questões supostamente características da filosofia continental, revela-se uma convergência entre as teorias de certos filósofos que pertencem à tradição analítica (Kuhn, Feyerabend) e as de filósofos «continentais» como Michel Foucault. Estas convergências são, por vezes, explicitamente reivindicadas. Wittgenstein é apresentado como traço de união entre os analíticos e os hermeneutas. Rorty, que parece ter-se empenhado, através dos seus escritos sobre o «pragmatismo», em impor Heidegger e Derrida aos seus colegas anglo-saxónicos, invoca o testemunho do público francês, publicando mesmo em França uma nota crítica do livro de Putman. E se os ataques que MacIntyre ou Leo Strauss fazem a pensadores como Nietzsche estão a meu ver justificados, na medida em que, Nietzsche decai, é certo, num certo isolamento desesperante (mas não é isso tão típico nos poetas?!) que facilmente e, mesmo que de forma, repito, um tanto errónea e apressada (ou pelo menos nunca consensual - estou intimamente convencido que este autor não deveria ser avaliado sob cânones "normais" ou da "racionalidade filosófica" mas, sim, artísticos), teremos de concluir que a sua proposta teórica não é passível à universalidade, quer em termos políticos ou de cidadania.
Explico-me: não se reflecte no que penso que deve ser a democracia, assente na argumentação racional.
Considero, sim, e não me assumindo como um "essencialista" no sentido duro do termo, que são necessários padrões morais se queremos manter o que, possivelmente, mais prezamos: as nossas famílias, os nossos filhos ou os nossos amigos. Se não existisse um padrão de valores (e aqui vou partir do princípio que tal inexistência seria possível), como educaríamos os nossos filhos? Sem uma referência ou padrão na educação (mesmo que linguística), ou sem sabermos a educação que outros pais estariam a dar aos seus filhos, o mais certo é que cada casal de pais, por uma questão de conservação ou sobrevivência, estimulasse os seus filhos a altercar hostilmente contra os outros, a não serem "lorpas" ou "bonzinhos", a não darem importância a manifestações altruístas, a tudo fazer para derrubar os outros e utilizando o fraco argumento de que, se não o fizerem, eles próprios seriam ultrapassados ou "pisados".
Devo confessar que a ideia de Padrão me é muito mais simpática quando é entendida como algo de orgânico, funcional e espontâneo. Digo isto pois, por vezes, sob epitáfio ou desígnio anti-relativista, parece-me que esta ideia adquire contornos de exuberância metafísica, lembrando Revoluções que de ético só têm o que no estético está sempre em vias de forjadura: o deleite no que de humano têm as paixões, e o lúgubre do que de thanatos tem o instinto.
É por isso que a leitura dos "relativistas" Levinas ou Derrida (devo confessar que, sobretudo a deste último, é penosa), me proporciona uma abertura intelectual ímpar, espiritual mesmo. E para aqueles que, a propósito do "retorno das religiões" e, particularmente aqueles que acreditavam, ingenuamente, que uma alternativa opunha de um lado a Religião e, do outro, a Razão, as Luzes, a Ciência, a Crítica (marxista ou nietzschiana, a psicanálise e herdeiros), como se a existência de uma estivesse condicio-nada ao desaparecimento da outra; tais "relativistas", de forma tão perspicaz, mostram-nos quão absurda é esta dualidade (ou mais esta!) , pois na existência de um logos fixo, as várias racionalidades, mais que contraditórias tornam-se "equipotentes", no sentido de não poderem umas viver sem as outras, e dento de um espaço linguístico que reclama, sempre, a contingência do referente.
Claro que este argumento, no qual - e por mera opção hermenêutica -, me fiz acompanhar por Derrida e Levinas, não é isente de objecções. Reconheço nele o que o relativismo tem de assustador, e para o qual a única saída seria a adopção do - um tanto antinómico - relativismo mitigado: dizer que "o único valor aceitável é a tolerância", é voltar ao que os não essencialistas, como eu próprio me vou, agora, assumir, pretendem negar: o logos fixo. Se fossemos estritamente relativistas, nem sequer a tolerância poderia ser apresentada como critério ou valor fixo, podendo qualquer um, e quando entendesse, não ser tolerante, sem qualquer necessidade de sentir remorsos ou o que chamamos de peso de consciência. Aliás, isso da consciência, dever ou virtude também seriam conceitos relativos.
Devo dizer que não é a mero reboque que neste argumento me faço acompanhar por pensadores de timbre marcadamente judaico-cristão, (sem que no entanto os seus fundamentos se afastem da argumentação filosófica).
A tolerância, o respeito e a responsabilidade, dificilmente surgem em alguém que não se sente devedor de algo. Ser-se responsável pelo outro, ser-se tolerante para com o outro implica a negação de qualquer vontade de domínio ou imposição dogmática.
É meu ver que o sentimento do respeito passa, também, pelo reconhecimento de que há coisas que nunca poderemos representar ou abranger completamente. Exemplifico: dificilmente alguém sente mais respeito por uma pedra do que sente por um ser humano. Nem mesmo os ecologistas mais aguerridos! Acredito que é mais fácil (pelo menos é-o para mim) representar uma chávena de café do que uma pessoa que comigo partilha momentos de conversa, carinho e ternura, ou então me rejeita sem que para tal consiga encontrar explicação.
Não será mais fácil sentir respeito por alguém que nos olha nos olhos, como que em súplica, do que senti-lo por alguém que nos tenta impor algo ou nos agride? Para os crentes, Quem merecerá mais respeito que o Deus do amor, do caminho, da palavra e da vida? Haverá realidade mais misteriosa que esta?
Trata-se de temor, é certo, mas também de uma vontade de acolhimento perante o mistério, e de uma forma que podemos assumir como positiva. Quero compreender a minha crença, dizia S. Anselmo
Nos relatos de guerra, frequentemente os soldados referem a dificuldade (ou mesmo incapacidade) de abater o inimigo quando este os olha nos olhos. Acredito mesmo que a melhor forma de escaparmos à morte face a uma situação em que um assaltante descontrolado nos aponta uma arma é, precisamente, olhando-o nos olhos.
O que me leva a questionar os tópicos da filosofia moderna é a ânsia da certeza que acentua no saber: a certeza, as condições de possibilidade, a preocupação de encontrar um modo técnico de pensar sobre as coisas, de as dominar, sintetizar numa totalidade em que o O/outro se torna no mesmo. Kant será uma honrosa excepção.
Deus é mistério e o homem também o é, assim como o é o Ser. E é precisamente em nome do Ser que o homem é uma realidade infinita. Não uma realidade muitíssimo complexa, mas uma realidade infinitamente complexa. A nossa finitude comporta algo de infinito que é irredutível a qualquer forma de representação discursiva.
O que vemos no olhar do outro? No mínimo, vemos pilhas de átomos e moléculas, vemos uma história pessoal, intencionalidades... no máximo, vemos toda uma história, todo um mundo linguístico intimamente paradoxal e rico, toda uma tradição e toda uma dívida. A essa tradição devemos-lhe a própria argumentação racional. A tolerância torna-se assim não só um valor universal como, assim entendida, não nos permite ser tolerantes para com quem atenta contra o ser/Ser: o terrorismo, o assassínio, o aborto ou a eutanásia poderão assim ser perspectivados.
No que toca a Deus, que melhor forma de O considerar senão na relação estabelecida com os outros? E que melhor forma de considerar o outro do que ter sempre presente dois aspectos cruciais: que não só a representação sob os cânones positivistas ou racionalistas (fenomenologistas ou historicistas) é de facto impossível, como é de todo desajustada! Indo ao escopo do pensamento de Heidegger, que tão pertinentemente sublinhou a diferença ontológica entre Ser e ente, se o objectivo é dominar a natureza, o resultado está à vista, eventos como o holocausto derivam desta mentalidade tecnológica, de um pensar frio.
Que melhor forma de ter contacto com Deus que a constante procura de respeito pela alteridade do outro, ou vermos no outro uma alteridade de facto? Assim como, termos presente, sempre, o que já escrevia Dostoyevsky em Crime e Castigo, de que "somos todos responsáveis por todos e eu mais do que ninguém". Haverá melhor forma de concretizar moralidade, religiosidade ou actividade mística que ter ininterruptamente presente que o O/outro implica uma abertura ao infinito, uma possibilidade ex-tática irredutível à concatenação em "formas" idiossincráticas e que ainda por cima são tidas como apriorísticas? Reporto-me aqui a Kant e Descartes, mesmo que o primeiro tenha sido bem mais humilde.
Para quem acusa Derrida ou Levinas de falta de universalidade ou de arautos do anti-iluminismo, a acusação poderá cair em vão. Haverá melhor universalismo que o garante de responsabilidade e respeito pelo outro, conferindo-lhe assentimento qua mistério avesso à representação teórico-técnica?
Autores como Derrida ou Heidegger ( pela poesia - e daí algum desconto -) ou Popper (pela via epistemológica e magistral escrita), mais não fazem que restituir à filosofia a sua vocação crítica, coisa aparentemente simples: a capacidade de mover as palas dos olhos e não ter medo de olhar para trás: remexer tudo se possível! Virar as palavras de pernas para o ar e com elas fazer piruetas, mas sem grandes esperanças de montar o puzzle completo, desde que norteados por uma asseveração intimamente moral ou de prática moral! E isto não tem, necessariamente, de ser assustador.
Karl Popper é um pensador que há muito tempo "adoptei". Partilho das suas ideias de Estádo mínimo - é preferível a liberddade à pseudo-justiça social ou pseudoproteccionismo (que, a ser realizável, e Heieck viu isso bem, nos coarta a liberdade e torna-nos trôpegos - assim como dos seus consequentes ataques ao historicismo, colectivismo, utopismo e totalitarismo. Melhor que ninguém, este autor soube apontar os pensadores a quem estes "ismos" são devedores, colocando a razão no seu devido lugar, e resolvendo de forma magistral a bifurcação metafísica e positivista entre ciências naturais e sociais. Popper foi quem melhor desmascarou tanto o elitismo hegemónico de Augusto Conte como os "sucessores" do Círculo de Viena, desmascarando também uma certa retórica moralizante e de timbre farisaica.
Parece-me importante salientar o risco que a racionalidade crítica de Popper, juntamente com a sua crítica ao utopismo, incorra numa má interpretação e transversão de racionalidade crítica em racionalidade meramente funcional, ou, então, num individualismo racionalista e dogmático típico das filosofias e democracias velhas. Que os seus brilhantes escritos sejam usados como contraponto aos mal-ditos "perspectivistas" (não é consensual que o sejam) Nietzsche, Heidegger ou Derrida - filósofos parricidas e obscuros que nem vale a pena serem lidos.
Quando Nietzsche afirma que "se a moralidade não é mais que uma expressão da vontade, a minha moralidade só pode ser o que a minha vontade cria. Não há pois lugar para ficções como direitos naturais, felicidade e fundamentação racional. A vontade deve substituir a razão constituindo o sujeito moral autónomo", todas estas asseverações acabam por sofrer do mesmo erro cometido pelos filósofos iluministas: uma espécie de procura - individualista - do inefável ou da pureza. O prespectivismo de Nietzsche poderá ser encarado como um erro de pensarmos que cada um cria as suas normas - é possivelmente o mesmo erro dos iluministas acreditarem que há uma espécie de verdade interior - não se tendo apercebido que estas normas são muito mais fruto de uma linguagem assimilada como forma de vida. Assim entendido, a linguagem é - na medida em que, devo dizer, custa-me aceitar a gramática universal - contingente. E nisso Nietzsche não falhou, sobretudo a ver por uma imensidade de filósofos, analíticos ou continentais que, reconhecendo ou não a dívida, assumiram esta contingência, mesmo que, com Popper ou Johnn Searle, resida nas teorias objectivas, isto é, ontologicamente subjectivas mas epistemicamente objectivas.
Porque não entender Nietzsche, e só digo isto na medida em que, em mim, essa interpretação torna-se possível, como alguém que vem dizer-nos que Deus é absoluto, sim, mas em abertura?
Não quero aqui colocar novos logismos neste pensador...
Lamento que muitos teóricos, bem intencionados, acabem por contribuir para uma cisão que os grandes filósofos não só rejeitam como não lhes passa pela cabeça o fazerem.
Quanto à razão, e finalizo, é minha convicção que só lhe resta duas vias, para que possa convergir - pois ela ainda se quer "unitária" - num só caminho na abertura:
Primeira via: abdicar da arrogância fatal que a levou ao racionalismo dogmático,
Segunda via: recusaro histérico, desesperado e amoral niilismo emotivista,
A abertura: retomar a tão legítima ambição da busca, sempre inacabada, do bem e da verdade.
É isto que procuro fazer, era isso que gostaria que o leitor fizesse. Popper fê-lo. O recém desaparecido e extraordinário Papa João Paulo II também, pois mesmo na condição de procurador da Verdade, soube ver Nesta sinónimo de incessante busca, de diálogo e esperança, de abertura crítica, de comunhão com a tradição, com a filosofia e a metafísica, com as demais religiões...
É este o caminho da filosofia. Impelir-nos à verdade, ao bem e à esperança.
Recordo as virtudes teologais Fé, Esperança e Caridade.
Porque a ausência de um conceito fixo não implica, necessariamente, a ausência de substância.
O professor de filosofia Artur Moura

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