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Wednesday, January 16, 2008

Mão Morta



Os Mão Morta são uma banda de Braga que eu tenho seguído com alguma atenção. O último concerto em que os vi foi no Teatro Circo, em 2007. Para além da escuta sonora, este agrupamento, como qualquer agrupamento musical de qualidade, representa um desafio reflexivo. Já este ano, voltei a assistir a uma actuação do vocalista Adolfo Luxúria Canibal, mas agora dentro do projecto Mecanosphere. São inegáveis os dotes artísticos deste vocalista, e refiro-me ao sentido rítmico, capacidade de representação e encenação, que, no caso, são excelentes. Também já tive a oportunidade de comunicar algumas vezes com o Miguel Pedro, que julgo ser o principal compositor dos Mão Morta, e de quem fiquei com uma impressão francamente positiva (fiquei a saber, a título de curiosidade, que, tal como eu, tem formação filosófica).
Não tenho presente, no momento em que escrevo este texto – confesso - os nomes dos álbuns deste agrupamento, ou então o nome das músicas que mais me impressionaram; mas foram seguramente muitas.
Ocorre-me citar uma música que julgo ser de um álbum recente, com o nome de Gnoma, e que é representativa da qualidade de composição musical deste grupo de Braga. Mas há muitas mais, em que se consegue fazer do formato pop/rock algo verdadeiramente criativo.
Devo confessar, também, que gosto mais de assistir aos concertos que esta banda dá em espaços com lugares sentados, como foi o do Teatro Circo ou, então, quando tocam em bares.
Enquanto ouvinte de música, a minha formação não passa tanto pelo formato pop/rock, embora seja um reconhecido admirador de bandas como os Divine Comedy ou os Smithes (já agora, há uma banda recente que certamente irá dar que falar, os The Dresden Dolls).
Acontece que os Mão Morta são uma banda que tem evoluído num sentido marcadamente experimental, o que considero positivo, servindo-se das novas tecnologias, sampler, sequenciadores e sintetizadores, e isto sem abandonar o intuito de manter um registo que, já deu para notar, funciona muito bem. A minha primeira crítica (se é que assim lhe posso chamar) dirige-se por ventura ao facto desta banda começar a cair no algo repetitivo, o que não deixa de ser característico neste tipo de formações musicais (do formato canção). Ainda assim, sinto que há um esforço de dinamização por parte dos compositores e letrista.
Um outro aspecto que me salta à imaginação, enquanto reflicto nos Mão Morta, é a da figura de inigualável carisma do vocalista, das letras que escreve, dos sons que produz. Ideologicamente, são muitos os aspectos em que me situo nos antípodas dele. Devo até confessar – e perdoe-me o próprio ou os fãs - que em alguns aspectos não lhe reconheço grande maturidade filosófica. Ainda assim - e não fossem as tantas vezes em que os diferentes pólos se tocam – e sobretudo enquanto eu próprio me meto nas investidas musicais (muito básicas, diga-se), experimento algo como que uma alma gémea que anda por aí e que revela o lado mais sombrio, desordeiro, animal e visceral da condição humana e, no caso, da minha, e que tem tanto de verdade quanta lhe quisermos dar, mas que de todo não lhe escapamos: à morte, ao sexo, à doença, ao mal, ao jogo, ao cinismo, à descrença crente, ao que o sistema tem de atrofiador, desorientador e libertador ao mesmo tempo; e que melhor expressão que a musica para dele se alimentar e sublimar?
O artista surge como um espécie de doente mental 'prenho' de verdade, de uma verdade inexprimível mas incansável no seu processo de desvelamento. A direcção pode estar completamente errada – o que acontece muitas vezes -, mas não deixa de ser um comprometimento com o ser e é isso que me fascina (não sou um puro formalista na arte).
Os Mão Morta lembram-nos que a mão está à morte, e que é, quiçá, na simplicidade deste sofisma que se desmascaram os vivos-mortos ou mortos-vivos.
Aproveito para mandar um abraço aos Mão Morta, em especial ao Miguel Pedro, para que continuem, com muita vida, a produzir boas sonoridades, e a beliscar consciências sempre em número crescente de profundidade. É que a verdade nunca se julgou fácil...

Artur Moura


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