O Sorriso De uma Pessoa...
Schopenhouer herda de Kant muitos aspectos do seu posicionamento filosófico. Em Schopenhauer e a Questão do Dogmatismo, o investigador Alexis Philomenko escreve que o filósofo da vontade “queria ver em todas as produções internacionais da alma estética uma verdade”. Trata-se, no fundo, da aspiração que todos temos em ver a arte, a moral e a verdade num todo, numa só Ideia Racional. Com a análise das meditações kantianas, poderemos melhor reflectir sobre esta notória diversidade e experimentalismo da arte contemporânea - a qual já apelidei de revolucionária - sobre a manifesta ausência de um critério absoluto e objectivo de arte e do gosto; e sobre a questão de saber se esta aparente ausência de referências significará, ou não, um sintoma de que estamos perante o há muito e por muitos denunciado relativismo ético enquanto esvaziamento espiritual ou – e numa outra leitura que poderá ser complementar – se não será esta mostra de diversidade e apelo ao experiencialismo e confluências de géneros artísticos o reflexo daquela que é a entrada em vigor - mesmo que este sempre lá tivesse estado - do princípio ou critério racional do juízo de gosto, o principio de conformidade a fins subjectivos – porque livres – da arte e da natureza enquanto princípio inter-subjectivo solidamente e racionalmente sustentado e única via que pode redimir o que a ausência de critérios parece ter de redutor, ou seja, o que a ausência de normas e leis da arte podem sugerir de relativismo ou abandono de uma busca de um sentido comum à humanidade e vivido enquanto acto de pensamento.
A teleoformidade da arte, ou seja, o facto da criação artística constituir um fim formal em si mesma e não um meio para alcançarmos um qualquer objectivo que lhe seja extrínseco, e que, a partir de Kant permite a não restrição da criação artística a um conceito determinado, implica a adesão à liberdade necessária para que possa, intuitivamente, a arte continuar a dar-nos indícios de que o nosso entendimento, como nota Roger Scruton, é algo de “sui generis, uma parte da nossa maneira de nos relacionarmos com o mundo enquanto nos relacionamos com ele como seres livres” .
Quando no início deste capítulo evidenciámos o carácter filosófico da questão relativa ao valor da beleza, quisemos com isto dizer que talvez a beleza signifique muito mais que a soma das suas partes, ou seja, que mesmo que a formulação da resposta à questão do valor da beleza possa ser feita mediante justificações e causas, não são porventura estas que conferem inteligibilidade à beleza. Até pela mais comum experiência quotidiana sabemos que tais justificações ou causas são mesmo indispensáveis para que possamos fruir a beleza artística ou natural. E se o sorriso de uma pessoa pode ser descrito com justificações e causas, quando nos deparamos com a abertura de um sorriso, aquilo que verdadeiramente fazemos é atribuir-lhe, mais do que causas, um sentido, um significado. O mesmo acontece com a música. Não precisamos de saber as intenções do compositor, os instrumentos utilizados, as afinações e os diferentes acordes, as diferentes tonalidades e atonalidades ou o número de notas que em simultâneo se reproduzem e entrelaçam; não precisamos deste aparato teórico de causas e justificações e nem mesmo de conhecimento histórico para fruirmos o sentido e significado que a música nos proporciona.
Dito de outro modo, e no seguimento da leitura que faço da Crítica da Faculdade de Julgar de Kant, não é pela soma e resultados causais efectuados pelo nosso entendimento que, daí, resulta a peculiar forma de compreensão estética, no sentido de um sentido, uma finalidade; a não ser pelo facto de que talvez este sentido sempre lá estivesse presente, aproveitando-se da sensibilidade, imaginação e do entendimento para desvelar-se, não numa representação teórica – falamos de sentido e por isso de algo que está para além da causalidade enquanto categoria do entendimento e que apenas nos dá leis mecânicas da natureza ou causalidades (é-nos por isso desconhecido) - mas é algo que é sentido enquanto sentimento, e mediante uma nova categoria da sensibilidade: o acto de reflexão. Tal como o nome indica, a reflexão não reduz a experiência estética a um mera sensação; o valor da beleza reside em algo de maior que a mera sensação, pois facilmente denotamos que quando participamos numa experiência estética, aquilo que sentimos é muito diferente da experiência que temos na digestão de um bolo de chocolate ou frutas. Trata-se de uma intuição reflexiva, ou seja, uma reflexão enquanto acto do pensamento. É como se a estrutura a que chamamos mundo – e aqui apelamos ao seu carácter metafísico - na experiência estética se revelasse tal qual ele é em si mesmo, e já não como um mero ponto de vista.
Claro que para que se dê esta experiência estética, torna-se necessário contemplar as coisas de forma desinteressada e sem preconceitos, o que implica, de facto, vê-las com distanciamento e desapego, como elas são em si mesmas. Os nossos sentidos devem estar libertos e despertos para o diferente ou então para outras dimensões não familiares.
Como salienta Scruton, “quando Milton exprime os sentimentos de vingança de Satanás, as suas palavras ardentes transportam-nos. Não sentimos que estamos a escutar esta ou aquela emoção «contingente», por assim dizer, mas a pura essência da vingança”.
Apesar de se tratar de um autor demasiado vinculado ao classicismo para que possa servir de exemplo ao que acabamos de expor, as palavras de Boileau sugerem, ainda assim e com considerável aproximação, o que o juízo estético reflexivo kantiano representa na história da estética enquanto disciplina, ao pretender demarcar-se tanto de uma estética da delicadeza ou sensualismo, como do classicismo:
“Que se me perguntarem o que é este agrado e este sal, responderei que é um não-sei-quê que se deixa sentir melhor que dizer: Em meu parecer todavia, consiste em nunca apresentar ao leitor senão pensamentos verdadeiros e expressões justas”.
Não pretendo aqui dissecar a proveniência do verdadeiros e justas e que farão deste autor um arauto do classicismo, mas realçar o não-sei-quê que se deixa sentir melhor que dizer, e que neste sentir residirá algo de maior que a mera sensação subjectiva. Reside um sentimento que se pretende – na sua subjectividade - universal.
Martinho Moura
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