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Monday, April 19, 2010

Pensar Com: Rui Costa (Docente de Educação Musical)

Algumas Considerações Sobre Música e Educação Musical - destaco referência a Heitor Villa Lobos

"Sabemos hoje, graças aos avanços das neurociências - um ramo da actividade científica que tenta desvendar alguns dos segredos do funcionamento do cérebro humano – que a aprendizagem de um instrumento musical (por exemplo, uma flauta de bisel) faz desenvolver ligações no interior do nosso cérebro que correspondem ao aparecimento daquilo que o neurocientista e prémio Nobel norte-americano Gerald Edelman chama de “novo mapa mental”. Quer isto dizer que os alunos (crianças ou adultos) que não aprendem a tocar um instrumento estão, de algum modo, a impedir que o seu cérebro desenvolva determinadas ligações. Não queremos com isto dizer que a música seja a única via possível para desenvolver as tais ligações, mas será bom aproveitarmos as oportunidades que a escola nos oferece para aprendermos a tocar um instrumento, mesmo que seja a tão “badalada” flauta de bisel! A simples articulação entre sopro, movimento de dedos e leitura das notas é um exercício delicado que, com certeza, estimula grande parte das áreas do nosso cérebro. Sabemos isto porque, hoje, graças a técnicas avançadas que permitem literalmente “espreitar” para dentro do cérebro, parece estar finalmente provado que a actividade musical é uma das actividades humanas que mais mobiliza os dois hemisférios (esquerdo e direito) que constituem o nosso cérebro.

Mas a música é muito mais do que isso! É uma actividade normalmente colectiva, o que implica uma grande disciplina e um grande espírito de colaboração. Pode ser também, por exemplo, um excelente meio de percebermos as principais transformações por que passa o nosso mundo, e até de antecipá-las.

Os artistas têm normalmente o poder de se anteciparem ao tempo, daí aquela expressão corrente que caracteriza um determinado músico, que se diz estar “à frente do seu tempo” . Quando hoje abrimos a secção de crítica musical de um qualquer jornal é vulgar encontrarmos referências a tal músico que funde o “jazz” e o “flamenco”. Mais à frente, podemos encontrar nova alusão a outro músico que procura reconciliar a “música popular” com a “música erudita”. É ainda provável que haja uma referência a outro que mistura os sons do “ocidente” e do “oriente”. Esta tendência geral do nosso tempo – o fenómeno do “cross-over” ou do “hibridismo” – acompanha a lógica da globalização e apresenta-nos demasiadas vezes produtos de qualidade muito duvidosa. Mas a mistura de géneros/estilos pode ser explosiva (implosiva?) e anunciar futuros desenvolvimentos em outras áreas da cultura ou até da ciência. Afinal o que é a tão falada “interdisciplinaridade” senão a tentativa de articular áreas do conhecimento tradicionalmente afastadas? E haverá outra via possível para chegar ao conhecimento verdadeiro e integral? Novas áreas do saber como a “neurociência cultural” são áreas híbridas por excelência, que procuram descobrir como o cérebro interage com o meio que o rodeia – como o influencia e é por ele influenciado. E que dizer da recente investigação em torno das ligações entre Razão e Emoção, dimensões do ser humano até aqui consideradas, por muitos, como incompatíveis?

Mas como começou esta tendência para o “hibridismo”? Quem foram os pioneiros, incompreendidos e vilipendiados no seu próprio tempo, mas que a passagem dos anos veio afinal mostrar que a ele se tinham antecipado?

Desde J. S. Bach abundam os exemplos de músicos que só alcançaram verdadeiro reconhecimento com a passagem, por vezes, de séculos sobre a sua morte...

Pode dizer-se que , na música do século XX, os primeiros exemplos de êxitos notáveis no diálogo entre os universos da “música popular” ou simplesmente “pop” e da “música erudita” ou “clássica” vieram de músicos provenientes do hemisfério sul, o que é, só por si, intrigante. Começando no brasileiro de ascendência portuguesa, espanhola e indígena Heitor Villa Lobos (1887-1959, na foto), passando pelo italo-argentino Astor Piazzolla (1921-1992) e acabando no anglo-parsi Farrokh Bulsara (conhecido como Freddie Mercury, 1946-1991) há já uma linhagem de músicos que foram capazes (e independentemente de gostos pessoais ou juízos extra-musicais) de conciliar o aparentemente inconciliável.

Podem encontrar-se tentativas frutíferas de diálogos do mesmo género em músicos do hemisfério Norte como o russo Igor Stravinsky, o americano Leonard Bernstein ou mais recentemente o britânico Elvis Costello. No entanto, há claras diferenças entre o primeiro “trio” e este último, que só se podem explicar em termos culturais...não será indiferente um músico ter vivido a infância na Índia ou nos E.U.A, pertencer a determinada etnia ou usar um sistema de escrita diferente do alfabeto...

Pode dizer-se que, da vasta produção daqueles músicos, apenas algumas peças conseguem esse êxito notável de encontrarem os interfaces certos entre mundos tão distantes, mas são elas que nos podem convencer da força da “miscigenação” (que é também a união dos contrários, a capacidade de relacionar o aparentemente irrelacionável) – afinal uma característica que os portugueses, ao longo da sua história, e apesar dos inúmeros episódios menos dignificantes, tão bem souberam fomentar..."

Rui Costa (Docente de Educação Musical)

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