Crítica da Faculdade de Julgar: A Preferência pela Beleza Natural e a Especial Relação deste tipo de Beleza com a Moralidade

Temos dado especial atenção à beleza natural, em detrimento da beleza artística. Isto deve-se ao facto de o próprio Kant manifestar preferência por este tipo de beleza, sendo que ela é mesmo determinante para todo o seu enquadramento teórico-filosófico.
É na secção cinquenta e um da CFJ que Kant escreve que ambas as modalidades de beleza, a natural e a artística, constituem-se como aptas a serem expressão de ideias estéticas; mas adianta uma subtil distinção, é que se no caso da beleza artística "a ideia tem de ser provocada por um conceito do objecto", no tocante à beleza natural, "a mera reflexão sobre uma dada intuição, sem um conceito do que o objecto é, é suficiente para despertar e comunicar a ideia" (§51).
Numa primeira impressão, estas palavras parecem entrar em conflito com os pressupostos base da CFJ, pois na introdução da obra, Kant escreve que é possível "tomar a beleza natural como exibição do conceito da finalidade formal (meramente subjectiva)" da Natureza, manifestando assim a existência de um conceito agregado à nossa experiência do belo natural. Naturalmente que esta só aparente contradição é desfeita com a noção de conceito imdeterminado, que, como é sabido, é de um tipo especial: subjectivo a um tempo, universal noutro.
É no entanto de supor que para Kant há uma diferença entre a beleza artística e a beleza da natureza, pois a primeira tem, por de trás da sua concepção, a inevitabilidade de um propósito ou intenção de um artista, o que lhe retira alguma liberdade e pureza aquando da sua fruição (que só o é inteiramente plena na fruição da beleza natural ). Kant associa à beleza artística o conceito de perfeição, mas o problema de ela envolver este conceito – mesmo que velado - acaba por retirar-lhe a pureza e liberdade próprias da genuína experiência estética, que, como sabemos, é avessa a qualquer conceito objectivo. Não é de estranhar que o pensador de Königsberg defenda que para o belo se manifestar na beleza artística, o seu criador terá de fazer um contínuo esforço de aproximação à beleza natural, ou seja, ele deve transparecer, na concepção da sua obra, que não tem qualquer conceito subjacente a esta, mesmo que, como é natural, algum tenha de ter:
Mas Kant vai mais longe na demarcação que faz destes dois tipos de beleza, quando, no £ 42, defende que só quem contempla a beleza natural poder ser directamente conotado como alguém que está, à partida, predisposto ao sentimento moral, revelando “pelo menos uma disposição do ânimo favorável ao sentimento moral”:
Mas é preciso recordar-se bem que aqui propriamente tenho em mente as formas belas da natureza, e contrariamente, ponho ainda de lado os atractivos que ela também cuida de ligar tão ricamente àquelas, porque o interesse por eles na verdade é também imediato, mas contudo empírico.
Quer isto dizer que o interesse espontâneo e habitual pela beleza natural , bem como a capacidade de sentir prazer com este tipo particular de fruição, sugere pelo menos uma predisposição para sentimentos morais, levando-nos necessariamente à seguinte questão: mas afinal, quais os fundamentos filosóficos que levam Kant a afirmar que a apreciação estética da beleza natural, por oposição à artística, está intimamente relacionada com o carácter moral? E que tipo de interesse é este – o manifestado pela beleza natural - e que só é inerente aos indivíduos predispostos à moralidade?
Em ... , Anne Margaret Baxley questiona se esta leitura de Kant não consiste numa instrumentalização deste tipo de beleza: “sentimos prazer na existência da beleza da natureza só porque a nossa experiência dela (de alguma forma) contribui para a nossa vocação moral?”. Se por um lado a fundamentação kantiana para a existência de uma conexão entre beleza e moralidade parece começar por delinear-se, por outro parece existir aqui uma contradição relativamente à taxativa tese do mesmo autor de que os puros juízos de gosto são os desprovidos de todo o interesse e/ou inclinação. Recordamos a argumentação base de Kant de que o juízo de gosto tem de ser puro e autónomo, e que para que esta argumentação não entre em colisão com posteriores afirmações contraditórias, torna-se necessário compreender o porquê deste pensador inicialmente sugerir que os puros juízos de gosto são os desprovidos de qualquer interesse para, e na mesma obra, considerar que não só temos, como devemos ter, um determinado e específico interesse na beleza natural, como se este ‘devêssemos’ consistisse numa obrigação moral.
Analisamos a definição de interesse dada por este filósofo. Inicialmente, Kant começa por descrever o interesse como “o gosto que nós conectamos com a representação da existência de um objecto” , descrevendo-o mais tarde como o “prazer na existência de um objecto”. Tratando-se da análise do juízo estético (que como sabemos é reflexivo), naturalmente que para Kant este tipo de juízo só pode ser inteiramente desinteressado, e tanto o prazer que se tem na contemplação da beleza artística como na beleza natural “não é de nenhuma forma conectado com qualquer preocupação que possamos ter com a existência de objectos belos” . Voltando a Anne Baxley: “que um objecto possa ser belo é ao mesmo tempo distinto da possibilidade de nos interessarmos pela existência de objectos desse tipo”. Isto percebe-se quando, ao consideramos um objecto belo - suponhamos uma tulipa - quando afirmarmos “esta tulipa é bela” não nos referimos propriamente a todas as tulipas; não estamos a produzir um juízo lógico no sentido em que é generalizado ou estendido a todas as tulipas e dentro do interesse manifestado pelo objecto que é a tulipa (como o resultado de uma objectividade empírica, de uma relação de necessidade empírica com o objecto – como acontece com as leis mecânicas e objectivas da natureza) mas estamos a afirmar que esta tulipa que tenho à minha frente é bela (não como o resultado de uma relação empírica necessária e objectiva – de interesse - mas uma relação subjectiva porque livre de uma relação empírica e determinística) . De acordo com uma famosa formulação kantiana, “em ordem de juízo em matéria de gosto, não devemos estar a favor da existência da coisa, mas devemos ser totalmente indiferentes para com ela” , o que reflecte a necessidade de autonomia e pureza radicais no juízo de gosto.
Claro que esta interpretação, que acreditamos ser a kantiana, não é imune à perplexidade, consistindo mesmo um motivo especial de desinteresse de muitos pela sua filosofia, pois neste ponto absolutamente estrutural surge como que um atentado àquela que é a visão do senso comum, numa suspeita generalizada que recai no facto de nos parecer implausível deleitarmo-nos com a beleza sem termos um qualquer interesse pela existência do objecto, fonte principal do prazer que sentimos no julgamento e experiência estética. Quando mais tarde somos confrontados com um filósofo que nos vem dizer que devemos ter um determinado e específico interesse pela beleza natural, o sentimento inicial de suspeição será, por ventura, o de ainda maior perplexidade - a contradição nos termos parece manifesta.
Para entendermos como Kant resolve esta, só aparente contradição, torna-se relevante analisarmos aquela que parece ser a grande elucidação do filósofo neste específico ponto, quando no § escreve que apesar de ter sido “demonstrado suficientemente acima que o juízo de gosto, pelo qual algo é declarado belo, não tem que possuir como fundamento determinante nenhum interesse [...] disso não se segue que depois da sua representação como juízo estético não se possa ligar a ele nenhum interesse” . Kant prossegue com afirmações posteriores (que podem ser vistas nos § 40 – 42), como as de que o juízo de gosto acarreta tanto um interesse empírico como um interesse intelectual na beleza, como se o interesse ou inclinação, tal como fora pensado na Fundação da Metafísica dos Costumes, não tivesse necessariamente de ser visto como mau; o que acontece é que “a inclinação nunca é um suficiente motivo para a acção moral e falha a qualificação de puro motivo moral, precisamente a coisa que Kant tenta isolar na explicação do que constitui um modo moral de vontade” .
Apesar destas considerações, e voltando à análise de Anne Baxley, “Kant espera mostrar-nos não apenas que a apreciação do gosto transporta consigo um interesse, como deve mesmo fazê-lo”, e se esta interpretação de Baxley está correcta, o interesse ou inclinação que Kant considera necessário na relação sujeito/objecto belo só poderá surgir como uma espécie de terceiro elemento, de modo a podermos manter a tese inicial de que “os juízos de gosto são eles próprios desinteressados. [... e] qualquer conexão entre gosto e o deleitar-se com a existência do objecto será uma conexão indirecta, um desvio através de um terceiro e mediato termo” .
Sendo o interesse revelado pela beleza natural uma espécie de terceiro elemento que surge no gosto desinteressado pela beleza, resta-nos saber qual o estatuto que Kant lhe confere, o que é dizer se se trata de um interesse de ordem empírica ou de carácter intelectual, e isto para melhor fundamentarmos a afirmação, sempre polémica, de que o gosto pela beleza natural não só transporta consigo uma relação com um determinado interesse mas que este interesse é do tipo não condicional mas necessário.
Mesmo que a resposta já está à partida dada, parece-nos de interesse analisar como Kant define estas duas categorias de interesse, o empírico e o intelectual.
1.3. O interesse empírico e interesse intelectual na beleza natural
Kant define o interesse empírico como “uma inclinação inerente à natureza humana”, e o interesse intelectual como “a vontade própria de sermos à priori pela razão”. Relativamente a este último, escreve o filósofo:
Àquele que contempla solitariamente (e sem intenção de comunicar a outros as suas observações) a figura bela de uma flor selvagem, de um pássaro, de um insecto, etc., para admirá-los, amá-los, sem querer privar-se deles na natureza em geral, mesmo que isso lhe implicasse algum dano e, muito menos, se distinguisse nisso uma vantagem para ele, toma um interesse imediato e na verdade intelectual pela beleza da natureza. Isto é, não apenas o seu produto lhe apraz segundo a forma, mas também a sua existência, sem que um atractivo dos sentidos tivesse participação nisso ou também ligasse a isso qualquer fim.
Se ambos estes tipos de interesse, o intelectual e o empírico, poderiam ser candidatos ao tal terceiro elemento conectado com o prazer desinteressado do juízo de gosto, esta última passagem parece enfatizar, de uma forma clara, que a experiência estética contem em si um interesse, sim, mas da ordem do puramente intelectual e intimamente motivado pelos princípios que a nossa constituição racional invoca. Ao não se trata de um qualquer interesse de ordem empírica (e que liga a isso um qualquer fim e adesão objectiva que acabaria por desviar ou anular a pureza exigida à contemplação estética ), já não estamos motivados pela posse do objecto em questão (e é neste sentido que somos indiferentes à sua existência). Contemplamos o objecto natural, mas fazêmo-lo sem pensar em qualquer espécie de dividendo ou em qualquer tipo de relação empírica; e daí sermos-lhe indiferente, fazendo todo o sentido que para Kant só perante a beleza natural possa surgir “um interesse imediato e na verdade intelectual pela beleza da natureza”.
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