A Experiência do Sublime na estética kantiana
Podemos dizer que, na experiência do sublime (que é também estética), as faculdades da imaginação e do entendimento adquirem uma expansão e um poder que são, ao mesmo tempo, acompanhados por uma enorme limitação. Isto acontece porque, pelo facto da experiência do sublime ser “absolutamente grande” e “acima de toda a comparação” (Idem: 141), estas faculdades parecem “tocar” as ideias da razão mais do que acontece no juízo sobre o belo, mas por não o conseguirem, elas como que se anulam e entregam esta experiência à própria incapacidade da razão de se representar a ela própria. E isto significa queprecisamente pelo facto que na nossa faculdade [da imaginação] se encontra uma aspiração ao progresso até ao infinito, e na nossa razão, porém, uma pretensão à totalidade absoluta como pretensão a uma ideia real, mesmo aquela inadequação da nossa faculdade de avaliação da grandeza das coisas do mundo dos sentidos a esta ideia, desperta o sentimento de uma faculdade supra-sensível em nós; e o que é absolutamente grande não é porém o objecto dos sentidos, mas sim o uso que a faculdade do juízo naturalmente faz de certos objectos para o fim daquele (sentimento), com respeito ao qual todavia todo e qualquer outro uso é pequeno. (kant)
O entendimento e a imaginação revelam-se impotentes na experiência do sublime, não conseguindo sugerir qualquer imagem, forma ou harmonia (daí o sublime ser disforme), sendo esta impotência a causa de um conjunto de sensações que passam pela insegurança, temor e mesmo medo; mas também respeito por este «absolutamente grande» que a racionalidade científica (o entendimento) parece não atingir, numa espécie de impotência inultrapassável face a este tipo de experiência .
É esta sensação de presença da grandeza, por um lado, e, ao mesmo tempo, de ausência ou impossibilidade de apreensão de tal grandeza que sugere a irracionalidade ou a existência do inapreensível (o que está para lá da razão teórica), do sem forma ou diferente. Mas isto significa, também, e tão simplesmente, que a experiência do sublime jamais poderia ocorrer no plano da imaginação e entendimento (ainda assim mais vinculados à empiria), mas sim directamente nas nossas ideias da razão, o que só corrobora aquela relação que pode ser estabelecida entre ideias estéticas e as ideias da razão (a razão prática); entre a beleza e a moralidade; e reforçando, assim, aquela ideia política do respeito pelo que é diferente e/ou não familiar – importante que é para qualquer comunidade :
Se porém denominamos algo não somente grande, mas simplesmente, absolutamente e em todos os sentidos (acima de toda a comparação) grande, isto é sublime, então compreende-se imediatamente que não permitimos procurar para isso mesmo nenhum padrão de medida que lhe seja adequado fora dele, mas simplesmente nele. Trata-se de uma grandeza que é igual simplesmente a si mesma. Daí se segue portanto que o sublime não deve ser procurado nas coisas da natureza, mas unicamente nas nossas ideias; em quais delas porém ele se situa é algo que tem que ser reservado para a dedução. (Kant)
Martinho Moura
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