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Sunday, February 06, 2011

A Felicidade no pensamento de Kant



Na CRPr, Kant escreve:

O homem é um ser de necessidades enquanto faz parte do mundo sensível e, a este respeito, a sua razão tem certamente uma missão indeclinável de se preocupar com o interesse da sensibilidade e de se fazer máximas práticas, em vista da felicidade desta vida e, se possível, também de uma vida futura (kant, 1788: 75).

E na Antropologia do Ponto de Vista Pragmático, afastando-se cada vez mais dos prosélitos da abstinência, ironiza:

O puritanismo do cínico e a castidade do anacoreta, que se privam dos prazeres da sociedade, são deformações da virtude que não incitam de forma alguma à sua prática; abandonados um e outro pelas Graças, eles não podem almejar o ideal da humanidade. (Kant apud Lancelin/Lemonnier, 2010: 111).

Escolhemos estas passagens por reflectirem o que consideramos ser o natural reconhecimento de Kant de que faz parte da natureza humana a procura, tanto da felicidade, como do prazer. Kant não nega o que a todos parece ser uma evidência, o que ele nega é que a procura da felicidade seja base apriorista de virtude.
Como argumenta Mónica Gutierres:
- Todos os princípios práticos materiais são empíricos
- Os princípios práticos empíricos não podem ser leis práticas
- Os princípios práticos materiais são todos da mesma espécie e classificam-se sob o princípio geral da felicidade pessoal.
- Logo, o princípio geral da felicidade pessoal não fornece leis práticas (Gutierres, 2006: 60).

O argumento é claro e não nos alongaremos nele. Ainda assim, parece que não conseguimos conceber a virtude senão como unida indissoluvelmente à felicidade: aquele que é justo, o santo enquanto alguém definitivamente infeliz, parece repugnar a própria noção de justiça . Por outro lado, há, no raciocínio kantiano, uma iniludível heterogeneidade entre moral e felicidade, pois ser-se virtuoso para se ser feliz é claramente imoral: a felicidade visada como fim de uma acção assegura-lhe a imoralidade, e a lei única moral é a do dever pelo dever enquanto austera fórmula da obrigação moral. Não sendo possível suster-se a noção de virtude enquanto ordem que conduz à felicidade (negar-se-ia a si própria) terá então, conclui Kant, de existir um ser inteligente, omnipresente e absoluto, necessário e criador do homem – ou seja, Deus – e que concede de forma absoluta a união entre virtude e felicidade:

Porém, visto que não estou unicamente autorizado a conceber a minha existência também como númeno num mundo do entendimento, mas tenho mesmo na lei moral um princípio determinante puramente intelectual da minha causalidade (no mundo sensível), não é impossível que a moralidade da disposição (Gesinnung) tenha, com a felicidade enquanto efeito no mundo sensível, uma conexão necessária, a título de causa, se não imediata, apesar de tudo mediata (por intermédio de um autor inteligível da natureza), conexão essa que, numa natureza que é simplesmente objecto (Objekt) dos sentidos, jamais pode ter lugar a não ser acidentalmente e não pode ser suficiente para o soberano bem (Kant, 1788: 134).

Deus é assim moralmente necessário, uma exigência da razão prática, da prática da acção, da nossa subjectividade e que nos reconduz ao mundo do absoluto e das realidades transcendentes, inacessíveis que são à razão pura/teórica . Ao mesmo tempo, é esta vontade omnipotente, “força obrigatória para nós” (Kant, 1781: 646), que permite “essa harmonia entre a natureza e a liberdade” (Ibidem), até porque, conclui Kant, “como poderíamos encontrar em vontades diferentes uma perfeita unidade de fins?”(Ibidem).

Martinho Moura

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