background="http://imageshack.us/a/img694/834/artur7.jpg">
my compositions:                        

Tuesday, November 29, 2011

Insociável Sociabilidade em Kant - a Cultura Técnica e o Horizonte da Estética


A revolução coperniciana, operada no plano do conhecimento, abriu o caminho ao definitivo abandono da ideia de Natureza Substancial. A natureza é, agora, um conjunto de objectos submetidos aos princípios do entendimento; ela é o referente objectivo desses mesmos princípios, e numa ordenação formal – Natureza Formal – dos objectos da intuição: Natureza Material.
Natureza Formal e Natureza Material são ambas formas da Natureza Natural enquanto produto da capacidade ordenadora do entendimento humano, e daí a necessidade de nos questionarmos nos seguintes moldes: “o que pode esperar a razão da sua própria obra de ordenação da realidade sensível? E a esta questão seria equivalente uma outra: que pode esperar a razão de si mesma?” (Idem: 16); o que é ainda traduzível numa outra: o que poderá esperar a razão de um ordenamento politico?
Com Kant, a razão é auto-consciente da sua soberania, mas também o é da sua solidão. Não há espaço para sentimentalismos, fé ou uma qualquer fusão de horizontes para com uma natureza que é distante, um outro que não o eu. A marca do idealismo subjectivista e construtivista é evidente: tentamos conhecer a nossa casa segundo os interesses da razão, de um «eu» soberano, autónomo, independente, digno e livre.
Mas Kant não se deixou enredar pelo puro idealismo, aquele que renuncia a toda a substancialidade de outro que não o Eu Glorioso. Kant tinha consciência do carácter finito deste sujeito construtor, de um sujeito que não tem no seu término o que as tendências hedonísticas ou as posteriores positivistas nos quiseram fazer supor. É como se a pergunta ruinosa pelo “fundo perpétuo e obscuro das superfícies” (Ibidem) fosse inevitável, sobretudo para quem possui a humildade e inteligência suficientes para ver que este sujeito tem no seu ser tanto de “misteriosamente poderoso como de insignificante ao mesmo tempo” (Ibidem).
Entramos num ponto de situação que nos permite apontar a pertinência kantiana, pois agora já não precisamos de explicar as nossas acções em termos de liberdade como alheamento, expulsão, saída ou emancipação da Natureza. O homem tão pouco possui uma Natureza Natural do instinto, deixando assim de fazer sentido qualquer obstáculo ao optimismo construtor do sujeito, a não ser aquele obstáculo que é fruto do homem: a sua acção. É a própria razão que aparece como ignorante de si na busca de si mesma. Uma razão que terá de imaginar-se, sentir-se e pensar-se numa dimensão bem diferente daquela que é a mera componente teórico-técnica.
Quando Kant, a propósito do desenvolvimento da história da humanidade, conclui que ela é pautada por uma «insociável sociabilidade» ou «insociabilidade sociável», nada mais nos quer dizer que o homem tem feito da sua responsabilidade uma espécie de ordem-desordenada; e se a natureza parece impor uma inclinação à vontade como interesse próprio e radical (o que nada mais é do que a conclusão que Kant extrai da CRP sob a designação de felicidade ou conquista incessante e natural desta), quer isto dizer que apontar obstáculos à razão significa apontar uma Natureza Natural da Técnica que não constitui uma Natureza Prática Formal, ao não garantir a universalidade de interesses da razão, mas sim uma contradição consigo mesma, como produto estritamente humano. É isto que leva leva Kant a propor a noção de natureza insociável, razão irracional, natureza antinatural.
Alguns filósofos procuraram alterar este estado antinómico das coisas mediante a anulação de um dos pólos do dilema e a consequente valorização (excessiva) do outro, mas Kant jamais poderia concordar com isto, pois destruir um dos pólos de uma qualquer visão filosófica significa, frequentemente, a transformação do outro numa espécie de cartilha dogmática, qualquer coisa que este filósofo, por sua natureza, não poderia consentir.
Mas, então, como Kant consegue mediar esta situação? Vimos já que a natureza técnica contribui para uma natureza paradoxal de ordem/desordem enquanto obstáculo aos genuínos interesses da razão[1], assim como é de elementar bom senso considerar o tema da felicidade de tal modo complexo que, por si só, requer a técnica; mas a questão que se coloca é se há compatibilidade entre a inclinação natural de busca técnica da felicidade e o princípio de universalização e da moral[2]; e se não deveríamos valorizar, a partir do sujeito, outra Natureza Natural não Técnica, uma outra noção de natureza para cumprir os fins e interesses da razão.
É precisamente a partir desta pergunta que se descobre a “necessidade daquela outra terceira Natureza Natural: a Natureza Bela, ou seja, aquela que é caracterizada esteticamente” (Ibidem); aquela que acaba por sustentar, por assim dizer, uma nova atitude – e que passa, naturalmente, pela ética –  e que mais não é que a atitude de privilegiar o sentido do universal em detrimento da mera busca técnica da felicidade individual.


[1] Que é o mesmo que dizer que a cultura técnica contribui para a natureza construída com o entendimento mas como dinâmica reconhecida como viva (organizada e social a um tempo, desordenada e a-social noutro). Como escreve J. L. Villacañas:
- "A busca incondicionada da felicidade como objectivo da vontade técnica não pode construir uma ordem pensável de regras universais que responda ademais a todas as inclinações internas produtoras de cultura" (Idem: 20).
- "A felicidade implica posse e domínio da existência de um objecto do nosso interesse, cujas regras técnicas para este domínio [de um interesse pessoal enquadrado num espaço e num tempo e portanto não compartilháveis] estão inseridas dentro de uma determinada cultura” (Ibidem).
- A técnica não pode ser uma ordem válida para todas as vontades, pois a sua essência, o seu a priori deixado ao livre jogo, não possui competência para a universalidade. Trata-se de uma natura em forma de “leis do entendimento e da vontade material do interesse pessoal" (Ibidem) mas não uma vontade formal.
- Uma razão técnica usada sem limites leva a considerações dos homens como meios de uso para os nossos fins individualmente definidos.

[2] Sobretudo quando a primeira é elevada ao absoluto.


Martinho Moura

0 Comments:

Post a Comment

Subscribe to Post Comments [Atom]

<< Home