UMA REFLEXÃO SOBRE O CONCEITO DE TRADIÇÃO
A pergunta à qual nos propomos
reflectir, neste pequeno texto, é a seguinte: como devemos encarar o conceito
de tradição à luz do pensamento de Karl Popper? Para respondermos a esta
questão, faremos, em primeiro lugar, uma breve análise do conceito de tradição;
para, depois, reflectirmos na argumentação do conhecido e respeitado filósofo,
cujo pensamento é marcado, precisamente, por uma profunda reflexão de toda uma
longa e vastíssima tradição que o antecedeu.
Posto isto, definimos o conceito de
tradição como uma transmissão de práticas, saberes, costumes e valores de
geração em geração; o conjunto das crenças de um povo; algo que é seguido
conservadoramente e respeitosamente através de gerações.
Ora, se é certo que vivemos rodeados de
tradições, a verdade é que nem sempre estamos dispostos a reflectir neste dado
aparentemente simples, no sentido de um questionamento mais radical sobre o
real peso das tradições nas nossas vidas.
Quantos de nós já participamos em
tradições sem termos averiguado seriamente sobre os seus pressupostos e
fundamentos históricos; sem lhes darmos a devida importância ou valor; sem
sermos suficientemente críticos das mesmas?
Certamente que não nos questionamos
sobre o facto de usarmos o relógio na mão esquerda; não sentimos necessidade de
fazer isso; mas, e relativamente a tantas outras tradições que atravessam o
nosso quotidiano? Desde as religiosas às artísticas, às culturais, científicas,
académicas, filosóficas e políticas? Não seria melhor, para o nosso próprio
bem, pararmos um pouco para reflectirmos com mais profundidade no que são as
nossas tradições, e, essencialmente, naquelas que nos afectam mais directamente
no dia-a-dia?
As tradições têm um peso tão grande
que, para concluirmos este complexo dado, basta pensarmos – e apenas para
darmos um exemplo – no que acontece na área da política. Quantos foram os
pensadores e respectivas correntes políticas e filosóficas que marcaram o seu
posicionamento, precisamente, por toda uma ruptura com a tradição? Nesta
relação inultrapassável com as tradições, são sobejamente conhecidos alguns
movimentos que se caracterizam como uma tentativa de aniquilamento de toda uma
tradição. Em Verdade, Valores e Poder,
o Cardeal Ratzinger, Bento XVI, escreve, a propósito do nacional socialismo e
do marxismo, que tais movimentos caracterizam-se pela "negação do estado e
o direito" (Ratiznger, 1993: 63), querendo este teólogo dizer que estes
movimentos surgem como uma espécie de contra-tese ou antítese à tese vigente.
Mais do que isso, eles afirmam, por assim dizer, um tal determinismo histórico
que só poderá caracterizar-se por todo um esvaziamento do conceito de tradição.
A tradição seria, assim vista, como um mero acaso no grande plano do devir
histórico.
O problema é que só podemos falar em
revolução porque existe um pano de fundo de tradição à qual o movimento
revolucionário se opõe, e, porventura, significa isto que um total esvaziamento
de uma tradição não só é coisa difícil de se fazer como parece, em muitos
casos, impossível. Isto será motivo suficiente para termos sempre algumas
reservas quanto às tentativas de aniquilamento de toda uma tradição.
Evidentemente que não nos referimos a
tradições que põe em causa os direitos humanos básicos fundamentais, mas temos
de reconhecer que, mesmo nestes casos, nem sempre é fácil e, sobretudo em
termos políticos, discernir qual a melhor forma de proteger estes mesmos
direitos – direitos que, também eles, resultam de toda uma tradição teórica
complexa pois nem sempre consensual.
Mesmo o que, nos nossos dias, acabou
por designar-se de neoliberalismo,
facilmente se conclui que esta doutrina tem em si o gérmen de uma tentativa de
ruptura com uma vastíssima tradição social e política. E se em alguns casos este
movimento parece ter sido aceite, noutros a sua aplicação tem sido bem mais
polémica e contestada. Isto poderá resultar de uma opção política que, querendo
aparentemente romper com a tradição – e, no caso vertente, com toda uma
protecção social consolidada pelo poder estatal (o estado de bem-estar social)
– encontrará inevitáveis obstáculos que resultam da própria tradição que o
antecedeu e sustenta. De facto, não é um tema fácil, mas, como referimos atrás,
certamente mostra não só a importância de uma tradição como a complexidade que
vamos encontrar sempre que a queremos reformar ou mesmo eliminar.
Devemos mencionar, também, todo um
conjunto de rituais, momentos solenes, festividades, formalizações,
inaugurações ou feridos nacionais que participam ou são um reflexo de toda uma
série de acontecimentos e conquistas políticas que resultam e convergem numa
tradição linguística que nos precede num plano que parece infinito. Basta
pensarmos no próprio conceito de "democracia", mas também nos de
"monarquia", "republicanismo", "aristocracia",
"liberalismo", "absolutismo", "platonismo" (o
platonismo político) "conservadorismo/progressivismo"; ou, então, na
inalienável noção de "direitos humanos universais"; conceitos estes
só possíveis, e aceites – independentemente da sua carga valorativa – num pano
de fundo de todo um desenvolvimento humano (teórico mas também prático), que
resulta, efectivamente, numa grande tradição devidamente institucionalizada.
Pensemos, também, no plano dos direitos
civis. Na sempre presente contenda entre tradição e pensamento; e que é
manifesta no caso do casamento entre pessoas do mesmo sexo, na interrupção
voluntária da gravidez ou na eutanásia. Certamente que não são problemas
filosóficos facilmente solúveis, e ainda o são menos se pensarmos que o peso da
tradição nem sempre resultará do peso de um preconceito; ou não será a
tradição, toda ela, uma experiência de sabedoria vivida que não pode ser
facilmente descartada? E a questão mantém-se: será possível descartar uma
tradição? Ou, apesar de tudo, temos de viver com a maior parte das tradições
ainda que possamos não participar nas mesmas, mas sim contestá-las,
combatê-las, reflectir nelas, pensar e repensar ou – e sobretudo – reformá-las?
De, constantemente nelas ponderar pois a própria ponderação lhes deve o acto?
Continuando no campo política, tema que
de resto será o principal objecto deste nosso estudo, pensemos, agora, no
conceito essencial de liberalismo.
Apesar de sabermos que estamos perante um conceito que encerra alguma
dificuldade conceptual, podemos, ainda assim, colocar a seguinte questão: será
possível uma análise séria deste conceito sem um estudo prévio da tradição que
o sustenta? Em nosso entender, claramente: não. Outra coisa, evidentemente, é
dizer que terá de haver um consenso sobre a real filiação deste conceito, ou
seja, o seu "real" significado. Ora, em nosso entender, consideramos,
igualmente, que não. Pensemos no que dirá a esquerda política[2]
sobre o “real” significado de liberalismo. Dirá que "o liberalismo
afirmou-se como a alternativa de esquerda a um conservadorismo mais ou menos
reaccionário, mais ou menos saudoso da monarquia absoluta e do Antigo Regime”
(Rosas, 2009). Afirmará, ainda, que “o liberalismo bate-se pelas liberdades
iguais para todos os cidadãos e pelo tratamento não discriminatório de grupos
historicamente discriminados: as mulheres, as minorias religiosas, étnicas ou
sexuais" (Idem). Já a direita
política, a propósito do mesmo conceito, dirá coisas diferentes; assim como
atrairá, para si, estes mesmos conceitos (como aliás o faz a esquerda): os
conceitos de liberdade mas também de liberalismo; e não só lhes vai dar outra
filiação teórica, como outro significado.
A direita política afirmará que o
liberalismo só poderá estar associado a uma atitude conservadora, pois a
genuína liberdade parte de uma atitude que, no seu entender, deverá ser
considerada, precisamente, de conservadora (na medida em que respeitará e
compreenderá melhor toda uma tradição filosófica e religiosa que a precedeu). O
livre arbítrio não pode ser desligado de certos imperativos morais (quer
filosóficos ou racionais – pensemos em Kant – quer religiosos ou fideistas – pensemos na tradição
cristã). A questão das minorias ou da defesa das liberdades individuais já não
se coloca da mesma forma que a coloca a esquerda, pois a direita verá, no
posicionamento da esquerda, uma primeva falta de esclarecimento relativamente
ao conceito de liberdade, bem como um claro défice na participação e análise da
própria tradição ocidental. Mais do que isso, ela fará um juízo depreciativo do
próprio conceito de liberalismo ‘adoptado’ pela esquerda, e cuja consciência de
liberdade, assim entendida, impede o caminho para a "estrada salvadora da
verdade que, ou não existe, ou nos ultrapassa [tornando-se], assim, a
justificação para a subjectividade daqueles que não se querendo questionar, se
adaptam ao conformismo social, o meio termo que possibilita a convivência entre
as diferentes subjectividades" (Ratzinger, 1993:29-30).
Também no plano da cultura, do
conhecimento e da ciência esta reflexão não deixa de se colocar. Pensemos na
arte e, em concreto – para nos socorrermos do nosso pensador objecto de estudo
Karl Popper – na música. Como escreve o filósofo, na sua Busca Inacabada, uma Autobiografia Intelectual, e a propósito da
música[3],
“[…] embora as modas possam
ser inevitáveis, e embora possam emergir novos estilos, devemos desprezar as
tentativas para estar à moda. Deveria ser óbvio que o "modernismo" –
o desejo de ser novo ou diferente a qualquer preço, de estar à frente do seu
tempo, de produzir "A Obra de Arte
do Futuro" (título de um ensaio de Wagner) – nada tem a ver com as
coisas a que um artista deve dar valor e que deve tentar criar." (Popper,
1976: 104, 105).
E acrescenta:
"O historicismo na arte é
simplesmente um erro. No entanto, encontrámo-lo por todo o lado. Até em
filosofia ouvimos falar de um novo estilo de filosofar, ou de uma
"Filosofia num Novo Tom" – como se fosse o tom que interessasse em
vez da música tocada, e como se tivesse importância que o tom seja velho ou
novo" (Idem)
Estas
passagens de Popper reflectem o que, em nosso entender, é, no mínimo, uma
atitude ponderada relativamente ao conceito de tradição. De facto, Karl Popper,
nascido em Viena a 28 de Julho de 1902 e falecido em Londres a 17 de Setembro
de 1994, foi um filósofo que morreu com 92 anos de idade mas sempre
intelectualmente activo. Salientamos o facto – e a propósito do que
consideramos ser um posicionamento filosófico e político moderado – de este
pensador não seguir uma tendência primária de estar sempre contra a civilização
ocidental ou capitalista; no fundo, a nossa tradição com os seus múltiplos
defeitos mas também muitas e muitas virtudes.
Karl Popper era um homem optimista,
que confiava no ser humano, na sua arte e ciência; era crente no progresso e no
conhecimento, e ainda que reconhecendo não ser possível a este ser humano
atingir uma qualquer verdade teórica definitiva (trata-se da nossa indefectível
falibilidade), defendia a sua aproximação, ou seja, uma cada vez maior
aproximação à verdade. Esta atitude implica, evidentemente, uma confiança – ou
fé – na razão: no ser humano. Popper sempre rejeitou o relativismo e o
hedonismo, e mesmo no campo das artes, o filósofo defendia que "as teorias
expressionistas ou emotivistas são triviais, não informativas e inúteis"
(Popper, 2008: 91). Este pensador procurou, isso sim, conservar o que de melhor
o espírito humano criou (neste sentido, era um conservador), sem no entanto
deixar de reconhecer que é no futuro e progresso que o homem deve especialmente
concentrar-se, o que é dizer: era um progressista. É precisamente neste
equilíbrio entre conservadorismo e progressivismo que podemos situar o
pensamento de Karl Popper, e que o devemos situar, também, relativamente ao
conceito de tradição[4].
A
rejeição de Popper da soberba intelectual, dos posicionamentos marcadamente
inovadores, (pseudo)esclarecidos e (pseudo)ablosutos – e sobretudo no campo da
política – significa uma rejeição de posicionamentos de tom que, em nosso
entender, são de timbre claramente adversarial. Adversarial na medida em que
tais posicionamentos – que na maioria dos casos nem são sujeitos a testes
empíricos severos – tendem a combater o que porventura temos de mais sólido: o
recurso à tradição e ao diálogo crítico construído e partilhado; à argumentação
racional e à teoria controlada com base na experiência.
Esta repulsa pelo racionalismo dogmático
e a restauração de uma racionalidade cujo estatuto já só pode ser o da
responsabilidade argumentativa e partilhada – e sempre em diálogo com a
tradição –, significa a rejeição de todo um vocabulário que algum dia se
pretendeu completo ou finalizado, e do qual resultaram consequências
desastrosas que a todos nos deveriam envergonhar. Pensemos nas várias
engenharias sociais utópicas, que em suas tentativas de redesenhar a sociedade
no seu conjunto mediante planos globais e salvadores, olvidaram um aspecto
crucial: tais planos ou políticas públicas ensaiadas teriam de sujeitar-se a constante
e gradual reformulação[5].
Em vez disso, o que aconteceu foi, por um lado, a aplicação dogmática de um
plano global – o que normalmente acarreta uma mudança também ela global mas sem
a capacidade de aprendizagem e reformulação – e, por outro, a atribuição dos
insucessos desses mesmos planos ao facto de não terem sido ainda completamente
alcançados (e aqui cabem tanto o nacional socialismo nazi como a alegada
racionalidade e aplicação do comunismo).
Isto percebe-se melhor se entendermos
como Karl Popper evitou cair no erro do subentendimento e “absolutização” do
próprio método científico, bem como na subsequente aplicação
"absolutista" ao plano social e político[6]
–, e isto mostra, de uma forma que consideramos cabal, a sua relação ponderada
com toda uma tradição que o antecedeu[7].
Assim, Karl Popper elaborou uma profunda análise filosófica à actividade
científica, assim como a subjacente crítica ao determinismo. Com efeito, no
método científico não se tem, como pretendiam os dialécticos, nem uma produção
da síntese nem a conservação necessária, nesta, da “tese” e da “antítese”, mas
sim conjecturas sujeitas a testes severos e sistemáticos que se anunciarão
tanto mais frutíferos quanto mais conseguirem “refutá-las” ou declará-las
falsas – consistindo isto a melhor forma de demarcação do que é um enunciado
científico ou não.
Exemplificamos: o enunciado “todos
os corpos dilatam com o calor” é um enunciado passível de análise científica na
medida em que podemos testá-lo com base na experiência empírica. Já o enunciado
“Deus existe” não é científico pois não temos uma experiência empírica dele ou
a possibilidade de o testar. Não sendo testável, não é falsificável; não sendo
falsificável, não é científico. Simples. No entanto, este mesmo enunciado – o
de que "Deus existe" – ainda que, para Popper, não seja científico,
não poderá ser considerado de absurdo ou sem sentido (como pretenderam tanto os
positivistas como os neo-positivistas ou alguns "modernistas"). Pelo
contrário, Karl Popper defende que a metafísica, como aliás já o fizera
Emmanuel Kant mas também Descartes ou Espinosa, não só não pode como não deve
ser considerada de absurda sem mais. Ela é progenitora de teorias científicas,
ou, como Kant defendera no século XVIII[8],
permanece como um espécie de foco
imaginário que dinamiza a própria actividade científica na busca de um
maior conhecimento e, sobretudo, de uma maior sabedoria[9].
A
seguinte frase de Popper é lapidar, caracterizando os perigos de quem, como
acabou por acontecer com as ideias sociais e políticas de Karl Marx, ao invés
de fundarem a política em valores como a argumentação racional e a teoria
controlada com base na experiência, fizeram da política uma racionalidade
“fechada”, “dura” e dogmática:
A
violência gera sempre maior violência. E as revoluções violentas matam os
revolucionários e corrompem os seus ideais. Os sobreviventes são apenas os mais
hábeis especialistas na arte de viver (...). Eu considero que somente na
democracia, na sociedade aberta, é que temos a possibilidade de eliminar
qualquer inconveniente. Se destruirmos esse ordenamento social com a revolução
violenta, não somente seremos responsáveis pelos pesados sacrifícios da própria
revolução, mas também criaremos uma situação que tornará impossível a
eliminação dos problemas sociais, da injustiça e da opressão. Eu sou pela
liberdade individual e odeio como poucos o excesso de poder do Estado e a
arrogância das burocracias. Mas, infelizmente, o Estado é um mal necessário: é
impossível prescindir completamente dele. (Popper, 1957)
Popper
acabou por combinar os ideais de liberdade e tolerância (já presentes em Locke)
com a tradição inglesa de governo mais limitado, renovando as ideias liberais
clássicas à luz das circunstâncias contemporâneas, e de modo a afastar – em
nome da liberdade – a ideia de um poder central unitário; um poder com a arrogância
de intérprete seguro da razão contra as conveniências particulares dos
indivíduos e das instituições privadas. Ele afasta-se, assim, de qualquer
tentativa de redesenhar a sociedade no seu todo, pois tal implica,
necessariamente, não só uma qualquer espécie de violência como uma total falta
de diálogo com as próprias tradições, ao revelarem uma propensão para desprezar
e hostilizar preconceitos, crenças, costumes e mesmo efeitos não intencionais
que advêm desses próprios projectos.
Mas é
importante dizermos, também, que Karl Popper não deve ser considerado o que
hoje se apelida de “neoliberal” ou defensor do “capitalismo sem entraves”. Como
o próprio enfatiza, o capitalismo sem entraves “resistiu com sucesso a toda a
legislação do trabalho até ao ano de 1833 e à sua execução prática por muitos
anos mais. A consequência foi uma vida de desolação e miséria que em nossos
dias mal pode ser imaginada” (Popper, 1957: 128).
Para
concluirmos, devemos dizer que um grande pensador é aquele cujas ideias
permanecem sempre actuais e aplicáveis mesmo após o seu desaparecimento.
Actuais pois apesar das muitas incompreensões a que estão sujeitas, surgem,
ainda assim, como um referencial que está para lá das modas e
circunstâncias/conveniências particulares; apontando, isso sim, para uma razão
universal que mais não é que o bom senso que está em cada um de nós. Aplicáveis
pois sempre apetecíveis a todos os que, ávida e sabiamente, procuram soluções
sérias e ponderadas para os problemas e conflitos humanos.
Isto
aconteceu com Sócrates, Cristo, Agostinho de Hipona, Descartes, Kant, Holderlin,
Tocqueville, Maritain … e, agora, com Karl Popper. Pensadores cuja radicalidade
e profundidade estão para lá de qualquer tentativa de aprisionamento a uma
corrente política; permanecendo, isso sim, como uma referência à mais sublime
das decisões políticas.
Num
contexto contemporâneo de crise – e em especial na Europa – onde as soluções
políticas correm acrescido risco de populismo, insensatez e extremismo, a
ponderação manifesta nos escritos de Karl Popper é essencial para a mediação
entre a constante tentação da estatização – que retira o que há de mais
precioso no humano: a sua consciência e a sua liberdade – e a não menos
perigosa política de esvaziamento dos serviços indispensáveis para que a
inviolabilidade dos valores e direitos continue a ser uma verdadeira exigência
dos ser humano – somente verdadeira na medida em que resulta de uma verdade não
fundamentada apenas numa maioria de pessoas.
Martinho Moura
Bibliografia
NESBITT, Kate
(2008), Uma Nova Agenda para a
Arquitectura: Antologia Teórica (1965-1995), São Paulo, Cosac Naify.
POPPER, Karl (1957-1974), A Sociedade Aberta e os Seus Inimigos, São Paulo, Editora
Itatiaia/Editora da Universidade de São Paulo, trad. da 5.a ed., 1957, de The Open Society and Its Enemies, Londres,
Routledge and Kegan Paul, 1945.
Popper, Karl (2008), Busca
Inacabada: Autobiografia Intelectual,
Lisboa, Esfera do Caos, trad. da ed. de 2002, Unended Quest: An Intellectual Autobiography, Londres, Routledge
Classics, 2002.
Ratzinger, Joseph
(2006), Verdade, Valores e Poder, Pedra de Toque da Sociedade Pluralista,
Braga, Editorial Feanciscana, de Wahrheit-Wert-Macht
Prufstein de pluralistische Gesellschaft, Vaticano, Herder Verlag, 1993.
Rosas, João Cardoso, (2009) O Liberalismo é de Esquerda, ionline.pt em: HYPERLINK
"http://www1.ionline.pt/conteudo/13483-o-liberalismo-e-esquerda" http://www1.ionline.pt/conteudo/13483-o-liberalismo-e-esquerda.
Acesso em 0
[1] Texto integrante de
um projecto de Doutoramento em Filosofia, na Área de especialização em Ética e
Filosofia Política
do Instituto de Letras e Ciências Humanas da
Universidade do Minho.
[4] Kate Nesbitt, em Uma Nova Agenda para a Arquitetura, sintetiza, de uma
forma que consideramos justa, o posicionamento de Popper face à tradição:
Popper é severo com a utopia e indulgente com
a tradição, […] para Popper, a tradição é indispensável – a comunicação
baseia-se na tradição, que está ligada à percepção de haver um ambiente social
estruturado; a tradição é um veículo crítico de um aperfeiçoamento da
sociedade; a “atmosfera” de uma sociedade relaciona-se com a tradição; e a
tradição é de certa maneira afim com o mito – ou, em outras palavras, tradições
específicas são de certa forma teorias incipientes, cujo valor é o de ajudar a
explicar a sociedade, ainda que o façam imperfeitamente” (Nesbitt, 2008:298)
[6] Daí, também, a
afirmação taxativa de Popper, em jeito de um questionamento muito pessoal sobre
o “socialismo científico”: “Eu perguntava-me agora se um cálculo desse tipo
poderia alguma vez ser apoiado pela ciência” (Popper, 2008: 54)
[9] Não deixa de ser curiosa a
afirmação de Popper, de que na sua juventude "andava a ler a primeira Crítica de Kant, e a relê-la
repetidamente" (Popper, 2008: 87).
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