KARL POPPER E SER-SE CONSERVADOR
Algumas considerações pessoais:
a) É verdade que sinto muito respeito pela tradição, e quero com isto dizer que acredito que o conhecimento é evolutivo, acumulativo, e mesmo reconhecendo que não podemos alcançar a verdade, acredito na sua existência e numa cada vez maior aproximação a esta.
b) Julgo, também, que os meus princípios colocam-me numa posição que, politicamente, poderá ser considerada de conservadora: uma posição que reconhece a existência de uma verdade, ou da verdade nas suas múltiplas vertentes (o que inclui a científica com o aspecto da corroboração - que não é o mesmo que probabilidade - e aqui socorro-me de Karl Popper), e que inclui a autonomia da moral relativamente à política, e de que devemos conservar os princípios/teorias orientadoras que mais se aproximam desta verdade e que são, por isso mesmo, mais racionais/universais.
c) A posição conservadora será, então, a de alguém alguém que acredita que há coisas que devem ser conservadas independentemente da vontade contingente e subjetiva de uma maioria num qualquer momento da história social, cultural e política.
Dou exemplos que muitos conhecem e lidam bem melhor do que eu:
1 - Eu não creio que a teoria política comunista possa ser conservada ou tida em conta por um conservador (no sentido de que possa ser aplicada), pois ela viola um princípio que, esse sim, em meu entender, devemos, primeiramente, conservar: a liberdade. A não ser que queiramos desistir de conceitos que, no meu entender - e certamente que sou um conservador - julgo que devemos, primeiramente, manter ou conservar: os de "animal racional"; "ser humano" ou "'animal' livre".
2 - No campo da arte acontece o mesmo, e por muito que gostemos de Pedro Abrunhosa ou Rui Veloso (para dar exemplos prosaicos), parece-me importante conservar Amália Rodrigues, ou ainda os 'gigantes' Bach ou Chopin; ou então Valter Hugo Mãe e José Luís Peixoto não podem "anular" Herberto Helder, Fernando Pessoa, Garrett ou Camões; ou Agostinho da Silva substituir Santo Agostinho (sem desrespeito, evidentemente, pelos primeiros).
É isto que eu entendo por posição ou disposição conservadora, e, neste sentido, parece-me que todos a deveríamos ter: a vontade de conservar o que de melhor o espírito humano construiu.
4 - Analogamente, na ciência/ física acontecerá o mesmo. A mecânica quântica não anula Newton, e a teoria de Copérnico foi falsificada por uma teoria mais evoluída.
5 - Voltando à política, não me parece que a posição conservadora regozije com a extinção do estado social/ex.escola pública, pois certamente que um conservador reconhece o valor fundamental da vida e que este deve ser conservado e que nenhum doente crítico deverá ser abandonado num hospital; como nenhum doente oncológico deve abandonar tratamentos pelo facto de não ter dinheiro - precisamente em nome do valor fundamental da vida. Também nenhum jovem pode ser privado da educação pelo facto dos seus pais não terem possibilidades, saúde para trabalharem ou mesmo/até não terem juízo/responsabilidade, e isto em nome dos valores de uma vida digna ou da igualdade de oportunidades - ainda que eu defenda a existência de taxas moderadoras e propinas como forma de responsabilização.
6 - Creio que todos temos de reconhecer que o Estado tem de sofrer uma reforma por forma a ser mais eficiente em todos os sentidos (dou o exemplo da administração paralela, ou então dos CTT, que tenho alguma dificuldade em perceber porque têm de ser públicos; o mesmo acontece com a televisão, cuja gestão, em meu entender, não tem de ser pública e pode ser privada - o Estado não é o melhor gestor). É-me difícil compreender, também, a razão de tantos gastos públicos em tempo de crise. Dou o exemplo do Parque Escolar, um excesso que não combina com tempos que, necessariamente, têm de ser austeros. Isto significa, em meu entender, que ele, o Estado, terá, necessariamente, de manter uma presença mais 'discreta' numa sociedade que deve ser mais competitiva, mais competente, que valorize o mérito e, o que decorre disto, seja mais eficiente. Isto não significa, bem pelo contrário, a desvalorização ou o enfraquecimento do Estado, coisa que um conservador certamente não quererá. Um conservador procurará, sempre, dignificar as instituições de referência na medida em que acredita em valores perenes; aqueles que se solidificam com o tempo (e de uma forma processual muito semelhante, em meu entender, à teoria do evolucionismo), e que só estas instituições públicas fortes os podem, e devem, preservar, divulgar, supervisionar e representar.
8 - As minhas reservas relativas a certos comentários/correntes políticos/as, é a frequentemente presente ideia de que a política serve para "resolver os problemas dos cidadãos". É uma frase muito comum quer à esquerda mas também à direita. Eu penso que esta terminologia, apesar de bem intencionada, indicia o que está errado no pensamento de alguns responsáveis políticos (portugueses ou não, e ainda que a intenção seja boa e mesmo louvável).
A meu ver, a política não serve, primeiramente, para resolver os problemas dos cidadãos, mas sim para os elevar numa perspectiva intelectual e moral (e esta é a melhor ajuda) - também através do exemplo e de referências valorativas estáveis - por forma a que os próprios cidadãos possam resolver os seus problemas. O objectivo da política é termos uma sociedade melhor. É para isso, por exemplo, que aprendemos a ler e a escrever: para sermos o mais autónomos possível. Isto não invalida que não nos ajudemos uns aos outros, e que ao Estado não caiba aqui uma função insubstituível; mas ele, o Estado, com as suas Instituições, devem ser, primeiramente, uma referência intelectual e moral, para que possamos ser cidadãos mais responsáveis, curiosos, críticos, criativos e válidos na sociedade.
Os mais altos representantes de uma nação devem, acima de tudo, apelar à razão como a melhor forma de 'resolver os problemas dos cidadãos'.
Os mais altos representantes de uma nação devem, acima de tudo, apelar à razão como a melhor forma de 'resolver os problemas dos cidadãos'.
Por este motivo eu sou um racionalista crítico; alguém que acredita na existência de uma verdade, e que ela é, acima de tudo, de timbre moral. Quando digo verdade e moral quero dizer verdade que não é linguística ou que não resulta do mero jogo da linguagem. É uma verdade que precede a linguagem.
Entre outras coisas, é isto que eu entendo por uma posição/disposição conservadora.
9) Isto não significa que eu veja no pensamento de filósofos como Karl Popper - e insisto que este pensador acredita numa cada vez maior aproximação à verdade - um reacionário cujo pensamento universal e abstrato pudesse conduzir, ao nível político, a um centralismo e 'dirigismo' dogmático, quer seja a nível nacional ou - em termos europeus - continental. Pelo contrário, pois tal como aconteceu com Kant, Popper, ao demarcar-se do racionalismo dogmático, só poderá colocar nos movimentos físicos/ psíquicos dos cidadãos/povos o motor do desenvolvimento da sociedade - ainda que "orientados moral e intelectualmente" por figuras de referência na governação e na sociedade civil.
10) Para o racionalismo dogmático, eu remeto, bem mais, tanto o comunismo como o socialismo, nas suas pretensões, em meu entender erróneas, de ´domínio´ do tecido social. Ora, isto é algo que me parece impossível, e que poderá resultar de uma atitude parca em conhecimentos, consequentemente dogmática e, necessariamente, reveladora de alguma infantilidade/arrogância. É daqui que eu retiro o meu fascínio por Karl Popper, quando escreve que "os nossos pontos de vista, frequentemente inconscientes, sobre a teoria do conhecimento e os seus pontos centrais ("O que podemos saber?"), ("Quão certo é o nosso conhecimento?") são decisivos para a nossa atitude em relação a nós próprios e em relação à política" (Busca Inacabada, Autobiografia Intelectual, p. 162).
10) Para o racionalismo dogmático, eu remeto, bem mais, tanto o comunismo como o socialismo, nas suas pretensões, em meu entender erróneas, de ´domínio´ do tecido social. Ora, isto é algo que me parece impossível, e que poderá resultar de uma atitude parca em conhecimentos, consequentemente dogmática e, necessariamente, reveladora de alguma infantilidade/arrogância. É daqui que eu retiro o meu fascínio por Karl Popper, quando escreve que "os nossos pontos de vista, frequentemente inconscientes, sobre a teoria do conhecimento e os seus pontos centrais ("O que podemos saber?"), ("Quão certo é o nosso conhecimento?") são decisivos para a nossa atitude em relação a nós próprios e em relação à política" (Busca Inacabada, Autobiografia Intelectual, p. 162).
11) Quando penso em pensadores como Kant ou Popper, penso em filósofos que, se por um lado representam uma drástica inovação relativamente ao pensamento filosófico-político, eles não estabeleceram, na essência das suas filosofias, um corte com a tradição (°), como o fizeram os "filósofos da suspeita" Nietzsche, Freud, Marx ou mesmo Darwin; ou então pensadores em meu entender bem mais superficiais como Rorty ou Peter Singer (ainda que respeite o trabalho e coragem deste último na defesa dos animais - bem como na sempre polémica (mas importante para a discussão racional) abordagem que faz do conceito de "pessoa").
Martinho Moura




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