Tradição
O tema da tradição tem sido abordado por vários
pensadores de reconhecido mérito; dos clássicos aos medievais, de
Descartes a David Hume, Nietzsche a Hegel, Karl Popper a Lasdair MacIntyre.
Neste sentido, não pretendo que a originalidade deste texto resida em mais uma reflexão sobre o papel que a tradição exerce numa sociedade, com os seus méritos mas também deméritos.
Neste sentido, não pretendo que a originalidade deste texto resida em mais uma reflexão sobre o papel que a tradição exerce numa sociedade, com os seus méritos mas também deméritos.
- Mas há algo no qual acredito convictamente: de que podemos exercer um contributo positivo com uma reflexão alargada sobre este tema.
- Mais do que uma análise crítica do tema da tradição, pretendo encontrar um consenso entre as diversas análises feitas a esta; e na senda de que, se o homem pode conhecer, pode ser livre, e porque sou otimista epistemológico e acredito na conexão entre o otimismo epistemológico e as ideias de liberalismo; acredito, também, que a um liberal exige-se submeter as várias teorias sobre a tradição a uma rigorosa análise crítica, e sempre com o objetivo de atingirmos um entendimento.
- Sem apelar para mais uma autoridade - seja a Bíblia, Aristóteles, Kant ou qualquer outra grande referência - parto sempre do pressuposto de que o nosso conhecimento é demasiado humano, sem que isso implique que todo ele se reduz a fantasias individuais e arbitrariedades.
- Queremos uma sociedade menos permeável aos males que nos têm afligido: a pobreza; a pobreza extrema; o desemprego, as crises financeiras, econômicas, políticas e morais, e é à Filosofia Política que compete uma reflexão profunda como forma de minimizar estas situações.
- Ora, em meu entender, e de uma forma generalizada, parece-me haver uma falta de clarificação relativa aos principais espectros ideológicos e/ou políticos. Explico-me melhor: talvez devido a uma falta de aprofundamento histórico (essencialmente história das ideias) é notória a falta de percepção de que, independentemente de considerarmos fundamental a partidarização e a coexistência/confronto de diferentes posições ideológicas, é ainda assim essencial – sobretudo em situações de crise – uma procura de entendimento alargado quanto às grandes questões de nível econômico, financeiro e mesmo cultural e moral.
- Não estamos em tempo da utilização simplista e maniqueísta de conceitos nem sempre tão antagónicos como aparentemente parecem ser - mesmo considerando e respeitando os aspectos que os separam. Refiro-me a conceitos políticos essenciais como Esquerda/Direita; Liberal/Conservador; Democrata Cristão/ Liberal, Comunista/Socialista/Radical/Moderado...
- Uma análise profunda do conceito de tradição e da forma como a devemos encarar permitir-nos-á, certamente, esbater diferenças menos essenciais e atingir pontos de encontro significativos pois consequentes para o progresso social, o que é dizer um melhor entendimento de uma sociedade.
- Não há sociedade sem uma tradição que a estruture, que lhe confira princípios orientadores mas que, também, muitas vezes a limita na sua dignidade básica. Mas quais as tradições que devem ser valorizadas e quais as que devemos eliminar?
- Dos vários autores que sinto gosto em analisar, a minha atenção recairá, em particular, para o trabalho de Karl Popper. Para este filósofo, a racionalidade estrutura-se no diálogo crítico que é capaz de estabelecer com a tradição; mas não é só razão e conhecimento que não vivem sem uma tradição, pois também os valores, para este autor, adquirem autonomia na exata proporção da própria estrutura, consistência, experiência e posterior institucionalização social. Tal é conseguido – sem violência física – por adaptação social, política e cultural, ao resultar de tentativas de ensaio e erro, crítica, superação, confronto com o dogma e o mito e, essencialmente, confronto com o que temos de mais humano: as nossas expectativas, os nossos receios e as nossas capacidades humanas de reconhecermos o erro mas também de procurarmos, incessantemente, a razão.
- Sob pena do confronto com a moralidade superficial dos instintos, a política demagógica, relativista, dogmática e autoritária, devemos concluir que razão é conhecimento, ciência, cultura, política, religião e arte. Razão é confronto crítico com a tradição e é, por isso, ou também, tradição.
- Não é possível uma análise criteriosa do plano social sem a valorização de toda uma tradição que a sustenta; e, ao mesmo tempo, é premente aceitarmos o simples facto de que conceitos como liberalismo, liberal, conservadorismo ou conservador não estão assim tão distantes como à partida parecem estar, pois ser-se liberal implica, necessariamente, uma reflexão inclusiva do plano da tradição, na exata medida em que não devemos entender a razão humana desvinculada do diálogo crítico que, todos os dias - e todo aquele que pensa criticamente - estabelece com a tradição.
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