SER CONSERVADOR
O seguinte texto serve para expressar aquele que é o meu posicionamento filosófico, político e teológico. Um posicionamento, por assim dizer, alargado.
O primeiro e principal aspecto é o de que - e corroborando as palavras de Jozeph Ratzinger/ Bento XVI - “é Deus quem governa o mundo e não os homens” (Ratzinger).
O segundo aspecto refere que este é o Deus judaico-cristão, o que é dizer, o Deus cristão.
O terceiro aspecto - e excluindo Cristo que mais do que sábio é o filho de Deus - aponta Kant como o filósofo da modernidade que melhor soube "explicar" a essência do cristianismo. Fê-lo de uma forma racional ou filosófica, sim (e por isso digo "explicar"), mas sem anular a metafísica. Só por isso é o grande filósofo da modernidade, tal como os filósofos e santos Agostinho e Tomás de Aquino o foram na Idade Média, Platão e Aristóteles (em especial o último) na antiguidade e Karl Popper na nossa contemporaneidade. A este propósito, não deixa de ser curioso que Karl Popper tenha afirmado que, da parte dele, não o ouviriam falar mal da religião. Não deixa de ser intrigante, também, que Aristóteles ocupe lugar de destaque nesta minha lista pessoal, e que todos os demais filósofos acabem, na razão inversa entre cronologia e qualidade filosófica, por perder algum valor. Devo dizer que não sou grande apreciador da filosofia da linguagem que parece subsistir no pensamento de Karl Popper, e considero, também, que apesar da filosofia de Kant se aproximar do cristianismo - em especial na prática da sua étic - é também esta filosofia que fica aquém do que deve, em meu entender, ser um genuíno cristão, que realista filosófico - acredita no realismo filosófico - e que não somente (ou apenas) pensa em Deus como sabe que Deus existe.
A propósito de ter mencionado Kant, convém dizer, é certo, que toda a sua filosofia pouco ou nada acrescenta ao que o grande Aristóteles já houvera dito. A minha admiração por Kant resulta - para além, evidentemente, da sua enorme e admirável inteligência - do que eu considero ter sido o enorme esforço racional que este pensador fez para nos falar da verdade, e prevenindo, assim, alguma forma de obscuridade religiosa. Isto desperta, evidentemente, a minha admiração (eu fiz uma tese sobre o pensamento geral de Kant), assim como, parece que Kant acabou por resolver algumas das aporias deixadas em aberto por pensadores como Aristóteles. Ao mesmo tempo, Kant contribuiu para a laicização do estado, para a ideia de uma espécie de governo global laico, o que é dizer, este pensador acabou por contribuir para alguns equívocos relacionados com uma intromissão que, porventura, seria desnecessária do Estado ou política na esfera religiosa e metafísica das sociedades, que por sua vez é primacial ao próprio Estado e cujas mesmas sociedades e o mesmo Estado lhe devem os valores mais elevados. Evidentemente que um Estado não deve impor uma religião, mas também não deve impor o ateísmo a uma sociedade que, maioritariamente, é religiosa. Mas é isso ou foi isso que o Estado fez quando retirou símbolos religiosos do espaço público: a promoção do ateísmo.
Neste aspecto, a filosofia de Kant perde, naturalmente e no meu entender, o seu valor prático, sobretudo quando verificamos - e só a título de exemplo - que as mortes provocadas por revoluções como a francesa foram consideravelmente superiores aos "estragos" feitos pela própria Inquisição (até aqui, percebe-se uma certa simpatia ou aproximação do meu pensamento à causa monárquica, em especial no que toca à vontade que esta manifesta na conservação dos valores mais elevados). Também é importante referir que o desconhecimento, por parte de Kant, da tradição filosófica - em especial a aristotélica - pode ter sido, de facto, efectivo, sem que isto diminua, evidentemente, a sua capacidade filosófica. Com alguma legitimidade, posso também considerar este pensador na esteira dos que acabaram por contribuir para a anulação do sujeito livre, conhecedor e moral, pois mesmo tendo em consideração o resguardo das ideias - quais postulados - de alma, mundo e Deus, bem como o seu respeitável e mesmo imbatível imperativo categórico, Kant acaba por imiscuir este mesmo sujeito no mundo dos fenómenos, algo que me parece contraproducente precisamente por considerar que este sujeito está, em termos morais, clara e nãoo hipoteticamente - ainda que um postulado seja mais do que uma hipótese - acima do mundo material (mas não enquanto sujeito superior em termos de conhecimento, pois somos sempre seres miseráveis - somos, isso sim, distintos dos restantes animais da natureza, o que é dizer: somos feitos à imagem e semelhança de Deus). A peroração de Kant de que o númeno ou realidade em si é inacessível ao homem ou sujeito que conhece, pode, de facto, levar à seguinte interpretação: há algo (não muito diferente do inconsciente de Freud, a sociedade nos pensadores marxistas, a linguagem em tantos outros pensadores e, neste caso, a realidade em si de Kant que, digamos, impede o sujeito de ser um agente racional, o que é dizer, um agente livre e moral). Há aqui uma reflexão que pode e deve ser feita, e de todo um conjunto de desculpas para anular o que verdadeiramente é a consciência e que, no meu entender, é inseparável da ideia de um observador enquanto referência externa e do qual a nossa consciência e liberdade participam. São muitas as ideias de Kant de númeno enquanto realidade caótica que o sujeito "organiza" e que nos devem fazer reflectir. Seja como for, também sou levado a identificar a realidade em si ou númeno com o próprio mistério de Deus (ainda que uma coisa seja Deus e outra o mundo), o que, de alguma forma, resguarda o pensamento de Kant das acusações de anulação do sujeito moral. Ainda assim, e para terminar esta minha reflexão, parece haver, de facto, e a partir de Descartes, uma espécie de teatro mental megalómano desempenhado por um sujeito que parece ser incapaz de aceitar a realidade da sua vida, a sua condição miserável de, simplesmente, não conseguir estar acima da realidade para observar o mundo- nós não somos Deus e quando o queremos ser estamos a perder, claramente, a espiritualidade. O eu transcendental de Kant é, assim, uma espécie de pseudo-Deus qual "eu" de Deacartes que, ao querer colocar-nos fora da realidade enquanto observadores neutros, objetivos e externos, estamos, isso sim, a perder a humildade essencial à condição da vida moral - uma vida que só é moral porque está a ser observada por Deus; Só é moral quando aceitamos a fragilidade e miséria da vida humana; Kant parece colocar, assim, por um lado, o sujeito num plano de uma coisa que ele verdadeiramente não é - conhecedor de uma objetividade transcendental megalómana qual pseudo-Deuses da objetividade absoluta - por outro, acaba por fragilizar a ética pressupondo a alma e Deus como postulados e não como realidades efectivas. Mais uma vez, parece ser o evangelho e a pessoa de Cristo a dar-nos as verdades concretas de que, de facto, precisamos.

O quarto aspecto refere que a palavra dos grandes génios - ou seja dos seres a quem Deus atribuiu a mais elevada inteligência (dom natural) conjuntamente com a graça santificante (dom sobrenatural), é ´divina`[i] e não humana[ii]. É desta forma que, comummente, dizemos que as músicas de Bach ou Mozart são “divinas”, os escritos de Fernando Pessoa, António Vieira, Herberto Helder são intemporais. Curiosamente, mesmo quando se assumem como ateus ou agnósticos, parece haver, da parte de muitos dos nossos grandes manifestadores de sentido, uma especial categoria que, normalmente, lhes é aplicada (ou que eles próprios assim se auto- designam), como é o adjetivo de místico[iii]. Quando cito Ratzinger[iv] de que “ é Deus quem governa o mundo e não os homens”, melhor exemplo não podemos ter que a sublime música de Bach[v], compositor crente cuja obra continua a «governar» a história da arte; artista que «ensina» os artistas de hoje o genuíno sentido do belo, tal como os escritos de Aristóteles ensinam todos os que, hoje, procuram a sabedoria; assim como o livro dos livros ensina a viver aos que estão disponíveis a tudo o que é eterno e não efémero.
As grandes obras e os grandes mestres ensinam-nos, de facto, que dificilmente podemos falar em arte sem falarmos em sentido; que não é possível falar em sentido equívoco ou em múltiplos sentidos; que a arte só é humana na medida em que também é divina[vi] ou sagrada, o que é dizer, a grande arte é aquela que surge da natureza que lhe é intrínseca de glorificação de Deus (ainda que alguns artistas o não façam de maneira inteiramente consciente). No fundo, é o que acontece com aquela que é a nossa espécie superior: é porque somos deiformes (feitos à imagem e semelhança de Deus) que somos humanos, e/ou só somos humanos porque somos filhos de Deus. Aproveito para referir que um dos maiores erros de muitos dos filósofos e políticos da nossa contemporaneidade consiste, precisamente, em colocar os seres humanos no mesmo plano material dos restantes seres e matéria da/na natureza. É um erro tão grave como é incongruente o seu pensamento, mas assim o fizeram e fazem alguns do nossos públicos pensadores contemporâneos, como é o caso de Peter Singer ou Richard Dawkins, mas também cientistas como Stephen Hawking e, partindo, assim, de uma base filosófica que, no meu entender, é errada e perigosa. Ainda que estes mesmos pensamentos possam, pontualmente, trazer relevantes contributos para a discussão filosófica, é de salientar que os princípios ou alicerces das suas filosofias são um erro e, por isso, tal como acontece com os pensamentos de Hegel[vii] ou Marx, mas também Foucault, Nietzsche, Freud ou Derrida, devem ser relativizados. A ideia de Hegel de que o real é racional e o racional é real está longe de ser um dado racional.
O ser humano é, assim, composto por matéria/corpo que, enquanto matéria, está sujeito às leis da causalidade - mas é importante referir que estas leis não são cegas ou determinísticas (ainda que mecânicas) e isto dá-se porque, em última instância, "é Deus quem governa o mundo e não os homens". Julgo que é neste sentido que a filosofia do conhecimento de Kant poderá, de facto, fazer algum sentido. Não conhecemos a realidade em si (a não ser de uma forma reflexiva), ainda que ela exista e seja, evidentemente, conhecida por Deus - até porque Dele participa-; assim como Aristóteles já o fizera magistralmente ao sugerir que não conhecemos a totalidade do objeto apenas na medida em que o ser do objeto pertence - e é - Deus - toda a essência é naturalmente participação divina. Para além do corpo, o ser humano é também constituído por uma alma. Esta alma existe de facto e o seu conhecimento é de foro racional: é-o na medida em que é a nossa racionalidade prática que nos revela isso (trata-se da experiência prática de liberdade e da própria consciência moral).
Ora, se a matéria obedece às leis da natureza, a alma deve obedecer às leis de Deus (e ainda que de uma forma filosófica ou racional, é isto que nos diz Immanuel Kant com a formulação do imperativo categórico, mas é sobretudo isto que nos diz Deus com os dez mandamentos[viii]). É importante referir, aqui, que, ao contrário do que parece sugerir grande parte da sociologia dos últimos anos, não é a sociedade que determina o que é o homem mas o homem que contém, em si mesmo e por via racional - mas sobretudo por educação religiosa e conhecimento do evangelho - os mecanismos de determinação da ética e moral que determinam uma sociedade sadia.
O quinto ponto - e sem deferir muito do que foi então dito - é de natureza política, e aponta o comunismo como o maior erro da nossa mais recente história e história política. Ao defender que é a matéria que salva o homem, o comunismo está a negar, precisamente, o que o humano tem de mais essencial e/ou humano: a sua razão, a sua vontade; a sua inteligência, a sua capacidade de vislumbrar os valores que são verdadeiros porque absolutos ou eternos.
O sexto ponto refere que o materialismo não se encontra apenas no comunismo, mas em todas as políticas de matriz materialista cuja natureza ideológica as envolve em constantes contradições, gravíssimos erros morais e frivolidades tão típicas, claro está, do materialismo. Carente que é de capacidade para alcançar sentido, e bem mais apenso à demagogia, o materialismo anula o que de essencial o homem tem e favorece o que este tem de menos essencial, mais violento e mais buçal). Este último aspecto é até frequentemente notório a quem, mesmo que involuntariamente (não vou aqui entrar na psicologia das escolhas pessoais, filosóficas ou políticas) se deixa enredar pelo materialismo, apresentando, de um modo geral, défice de sentido crítico ou pensamento autónomo, défice de carisma e uma inexplicável (ou explicável pois materialista) busca de visibilidade ou notoriedade (a procura de mediatismo superficial é apenas mais uma forma de materialismo), bem como a falta de autonomia, de sentido crítico ou de educação, de reserva/ recato ou, então, falta de experiência e genuína capacidade meditativa.
O sétimo ponto começa onde acaba o sexto, e defende que há uma tendência dos pensadores materialistas em considerar a liberdade associada a qualquer coisa de gregário, ou seja, de que a liberdade tem de ser entendida de uma forma complexa ou espessa, sempre dependente de qualquer coisa externa a ela própria ou à ação por ela desencadeada - seja a sociedade, os impulsos sexuais, a capacidade financeira, o inconsciente... Ora, é a própria história - nomeadamente a história da arte - que nos revela, precisamente, o contrário, pois não só as mais elevadas demonstrações da inteligência humana surgiram de uma forma relativamente isolada (ou de forma individual – recordo que a verdadeira criação (ou o que eu chamo de ponto de criação)- é, necessariamente, um processo solitário, único e ´original), como é também frequente vermos que as grandes obras de arte surgem em fase inicial das vidas dos seus criadores, "alheados", assim, do mundo que os circunda (ainda que não alheados de Deus na medida em que Dele são originários- as grandes obras de arte, insisto, são o reflexo sensível da consciência divina - e isto não é redutor para a obra de arte, apenas na medida em que ela - a arte - que é paralelamente importante apenas na medida em que nos lembra que somos de um nível intemporal por estarmos neste e/mas também fora deste mundo - é isto que explica que a grande arte não tenha, de facto, referência empírica, concreta ou vulgar e julgo que deveríamos, todos, pensar nisto - é de lamentar a insistência no subjetivismo de gosto em questões artísticas, que não conduzem, bem pelo contrário, à elevação do espírito humano. Devemos ser tolerantes e curiosos, perceber que a criação envolve sentimentos locais e temporais, as paixões (assim como, evidentemente, o experimentalismo), mas devemos saber, também, que a grande arte toca a todos precisamente porque enaltecer o espírito metafísico de todos os seres humanos. Insisto: no que toca à grande arte não devemos insistir na tónica da subjetividade, do empirismo ou subjetivismo se não quisermos parecer intelectualmente subdesenvolvidos e/ou moralmente deslocados do essencial. Há, acredito, um juízo subjetivo, sim, mas que, ao mesmo tempo, é universal, e este, foi, decisivamente, o grande contributo teórico de Immanuel Kant plasmado especialmente na sua terceira crítica: a ideia de um senso comum que em nada difere da constatação de uma consciência religiosa.
É assim a própria história que nos vem dizer que o erro está, essencialmente, nas massas acríticas e no homem massa (não preciso de recordar a condenação histórica de Cristo) e de que, pelo contrário, a virtude bem mais associada à pessoa relativamente isolada ou teista, ao visionário, ao santo, ao pensador, ao artista, ao crítico ou/ e ao "criador", àquele que dialoga internamente e criticamente com a sua tradição; e ainda que esta mesma história nos mostre a figura do ditador sanguinário, estaremos já a falar de psicopatologia e não de uma razão ´divina`. A razão ´divina` (ou agraciada) não ofende, não desrespeita e não aniquila, mas, isso sim, e apenas, a nossa animalidade. Quando me refiro ao homem massa, refiro-me ao homem descrente na sua capacidade racional de averiguar sobre o bem e a verdade, e refiro-me, paralelamente, a um conjunto de pensadores que, ainda que involuntariamente - quero assim acreditar - acabaram por contribuir para esta perigosa anulação do sujeito ou de um "eu" moral independente de um mundo exterior. Um eu que, não sendo divino, existe para reconhecer o divino - é neste sentido que a santidade se constitui como o objetivo último do ser humano. Trata-se, assim, de um eu filosófico que só ama e procura a sabedoria porque sabe que a sabedoria existe; um eu reflexivo que tem uma existência neste mas uma outra no verdadeiro mundo; um eu religioso que não cessa de ver no outro um filho de Deus - que vê no outro humano um fim e não um meio; um eu religioso que sabe que a verdade (e em especial a verdade moral ou a ética absoluta) existe e que, no seu pensamento, tem suficientes indícios de que a verdade é inseparável da existência de um observador externo, ou seja, de Deus. Refiro-me, especialmente, no campo da ética ou na ideia de consciência. Há um eu religioso que reconhece a importância dos sacramentos para o contínuo exame de consciência e salvação humana, que o faz pela reflexão individual e pelo conhecimento histórico.
Assim sendo, esta consciência é inseparável da noção de que estamos a ser observados por Deus. Não existe outra possibilidade de falar em consciência moral sem ser de uma maneira necessariamente superficial: "em consciência e perante Deus fiz o que quer que eu tenha feito...".
O sétimo ponto dá conta de mais uma argumentação deficitária dos pensadores materialistas, a saber, a de que, como não temos os mesmos talentos, alguns terão de ser mais favorecidos na distribuição da riqueza. O mesmo se passa com a capacidade financeira, admitindo, assim, favorecer quem tem menos. O erro desta argumentação é, naturalmente, duplo, na medida em que encara o homem como alguém fechado na sua falta de capacidades ou genial por decreto, quando a mais elementar psicologia e/ou análise sociológica no diz que o ser humano é, isso sim, uma possibilidade de ser, sobretudo quando lhe é dada oportunidade para tal e, em especial, a educação. Independentemente dos diferentes talentos que, de facto, possuímos, todos somos úteis e capazes de auto-realização. Todos somos geniais quando reconhecemos - basta para isso voltarmos o nosso pensamento para (e apenas a título de exemplo) o compositor Bach - de que o sentido da vida consiste, de facto, em glorificar Deus; não um Deus abstracto ou distante e de demonstração lógico-matemática (este não o vamos encontrar por muito que a especulação tenha, efectivamente, valor no plano do conhecimento) e que se quer glorificado, mas um Deus pessoal, de relação pessoal e que nos permite a felicidade num diálogo permanente e verdadeiramente existente.
Voltando à filosofia política, e relativamente à ideia de que o Estado deve favorecer quem tem menos possibilidade financeiras - e mesmo falando numa abordagem mais moderada e hodierna de promoção da igualdade de oportunidades - é mais uma vez a elementar psicologia que nos dá a resposta, pois subsidiar sem ensinar a obter financiamento e, sobretudo, a viver condignamente é, naturalmente, um convite ao laxismo, à preguiça física e intelectual, à paralisia do sentido crítico e auto-crítico e ético; da própria vontade, bem como à débil percepção de que é possível viver sem o basilar entendimento socrático de que «uma vida não refletida não é, efetiva e evidentemente, um modo de viver digno». O estado deve assim e, sim, intervir ou interferir com ajuda/apoio económico e financeiro em diversas situações (mesmo as mais emergentes como catástrofes naturais ou até económico-financeiras, epidemias ou doenças complexas/ crónicas) de que as nações não podem abdicar – ou de que o indivíduo carenciado tem, naturalmente, dificuldade em resolver situações de foro pessoal bastante complexas. Não se está, por isso, a defender uma política neo-liberal, ultra-liberal ou desumana mas, isso sim, de que este investimento público - importante e humanizado - bem como a aplicação de impostos têm de ser feitos de uma forma reflectida, parcimoniosa, profunda e meditativa - utilizando longos argumentos - de uma forma criteriosa e sem segundas intenções de promoção política pessoal; valorizando, antes de mais, a educação obrigatória, a segurança e todas as instituições cujo tempo consolidou como importantes para a elevação espiritual das comunidades. No fundo, a nossa liberdade e a sempre necessária elevação à essência do ser humano. O estado não pode promover uma liberdade irrefletida mas, e isso sim, uma liberdade que traz consigo uma reflexão profunda e uma análise de que a liberdade é inseparável de uma reflexão que exige necessariamente alguma forma de organização - e que, necessariamente, inclui a inclusão de conceitos como os de tradição, universalidade, justiça e aprofundamento histórico)
A questão nem deve, assim, ser colocada nos diferentes polos de liberal/conservador/estatal/revolucionário/reaccionário/esquerda/direita, mas, e melhor, de saber qual a política que mais se aproxima (ou que é mais concernente) aos princípios de universalidade. Ora, dentro do atual espectro político, e decorrente da minha linha de pensamento, parece-me que o erro está, naturalmente, na vertente materialista (com especial ênfase para toda e qualquer forma de marxismo cultural) , bem como a virtude estará, necessariamente, mais próxima da disposição conservadora de inspiração cristã. Não há engenho mais perigoso do que aquele em que qualquer entidade política, partido ou ideologia se quererem igualar a Deus, qual salvadores de indivíduos que, por sua vez, até se querem obscurecidos por ideias que os não elevam seja intelectual como moralmente. O grande inimigo do materialismo é, assim, a Igreja Católica, na medida em que é o Cristianismo que eleva o espírito e nos mostra o que é a verdadeira ou/e mesmo a única forma de liberdade e consciência. Obviamente, e muito lamentavelmente - mas, reconheço, naturalmente - que as forças do materialismo não querem isto. Pelo contrário,o materialismo visa agentes sociais subdesenvolvidas para que os mesmos possam ser resgatados, não no sentido de os elevar moral e intelectualmente, mas de os afrouxar no entendimento, qual fantoches à merece dos pseudosalvadores - dalvador que, no fundo, seria o grande substituto de Cristo mas cheio de sinais e prodígios da mentira segundo a eficácia de Satanás.
O oitavo ponto aborda a questão essencial da tradição, e é este aspecto, importante e essencial, que deve ser aqui ressalvado. Não quero assim que se depreenda das minhas palavra que faço a apologia do indivíduo isolado, lógico porque detentor de princípios universais absolutos – isolado porque detentor da verdade; genial porque vislumbra antecipadamente princípios universais e mesmo absolutos no sentido de vislumbre metafísico enquanto possuidor de intuições intelectuais ou ideias inatas e que até poderá querer impor universalmente aos supostamente subdesenvolvidos e de uma forma violenta - tal seria totalitarismo e não humanismo). É certo que que o homem, tal como tão magistralmente o defendeu Kant - e já Platão mas também Aristóteles nos ensinaram - tem, de facto, a capacidade de intuir indícios de universalidade, nomeadamente fortes intuições éticas, mas só o faz porque está inserido numa tradição que não é em si absoluta porque é, muito mais, humana. Podemos mesmo dizer: só é absoluta porque é o resultado da limitada condição humana - de seres sensíveis que na sua condição sensível (e por isso inserida num espaço e num tempo), têm, ao mesmo tempo, a capacidade de nos nos revelarem, pela arte, ações e escrita, indícios de intemporalidade; e se a nossa fé e razão permitem aceder ao absoluto, melhor o fazem com o apoio de uma tradição, em especial religiosa e sobretudo artística, que recolhe do tempo e da história o que de melhor ela própria tem; o que mais de aproxima da universalidade subjetica. Fá-lo naquele salto que é sempre inseguro (estamos naturalmente no domínio da metafísica, da fé, do religioso ou sagrado), mas é o tal salto que é apenas possível na medida em que é suportado pela tradição. O homem atreve-se ao absoluto, ao intemporal - mesmo que não possamos ter uma certeza racional (para falar numa linguagem científica pós Newton) dessa presença metafísica (temos a fé - e ainda bem que a temos - a graça santificante que não impõe mas ama incondicionalmente). Convém aqui salientar que, nas questões mais essenciais do direito, do verdadeiro direito e não do direito aparente - daquele direito em que está em jogo a dignidade humana - o princípio maioritário não basta. Devemos, assim, procurar o critério em nós próprios e por isso numa relação com Deus.
A propósito do que se entende por certeza racional sobre a existência de Deus, convém aqui esclarecer um ponto, pois se é certo que, de facto, não temos dados empíricos de Deus para o colocar no plano da ciência comummente entendida nos dias de hoje, temos, sim, dados racionais para podermos falar em racionalidade de Deus e sobrepor a própria certeza da existência de Deus ou da metafísica aos estudos científicos e empíricos modernos ou à física, ainda que esta última seja imediatamente mais necessária - de notar a asserção de Aristóteles(a propósito da metafísica) de que "todas as outras ciências podem ser mais necessárias ao homem, mas superior a esta nenhuma". E é aqui que eu me corrijo a mim próprio, pois se, com Kant e na magistral Crítica da Faculdade de Julgar, percebemos que é possível sentir e refletir Deus (e é com este pensador que o sabemos definitivamente), é também por isso que, no nosso raciocínio, Deus ocorre de uma forma meditativa ou reflexiva - o que aliás também acontece na filosofia de Kant, em que o seu/nosso argumentar conduz, necessariamente, à metafísica.
Exemplifico com o argumento materialista (porque pobre)sobre o início do universo e sobre o que existiria antes do início e que causaria a sua existência. Ora, este argumento carece, de facto, de uma natureza lógica ou espiritual/universal, pois se pensarmos de uma forma material e, como disse já, relativamente pobre, pensamos, sim, no que seria o início da matéria e do universo ou mundo físico, mas acontece que antes de existir o mundo físico já existem as regras invioláveis da lógica e matemática que são as regras que alicerçam a aritmética ou o pensamento em geral e que não dependem do universo físico (ainda que sejam da ordem real). Ou seja, e para compreendermos melhor, sabemos que a lógica é formal e a sua necessidade não depende da experiência ou dados empíricos, e ainda que, para, e exemplificando, fazermos um qualquer cálculo como uma elementar soma, sintamos a necessidade de fazer uso dos dedos ou das intuições sensíveis (como contar duas mais três maçãs), sabemos, sim, que o resultado de dois mais três é igual a cinco e que a necessidade deste resultado é independente da experiência, o que significa que dois mais dois é igual a quatro mesmo se o mundo físico não exista, o que indica uma coisa óbvia: o pensamento é primacial relativamente à matéria - o sentido é primordial ao mundo e o verbo é, pois, divino ao ter um sentido e é, de facto, primordial. Não podem existir regras de pensamento sem um sentido ou qualquer coisa que possa existir e esta conclusão não precisa de ser do domínio demonstrativo mas é, muito mais, do meditativo. Falar de regras de possibilidade que não existem parece-me uma contradição pois o domínio da possibilidade da existência existe. Explico melhor: não o que é possível mas a possibilidade - a possibilidade de existir algo existe; não pode não existir pois sabemos que existe algo. Quando nos perguntamos quando começou o mundo físico, estamos, então, a ser, de facto, infantis. Teremos assim de nos questionar, isso sim, quando começou a estrutura do real. Sim: a razão pré-existe ao mundo físico, o que é dizer, e em termos bíblicos, no princípio era o verbo.
Recapitulando: as regras da verdade são anteriores à minha existência, do mundo e do universo físico e a verdade - que só pode ser de nível intelectual ou lógico porque universal - é, sim, independente da matéria/experiência ainda que esta última também seja do domínio da existência eterna. Todos os fenómenos da natureza, naturalmente, expressam proporções matemáticas, que por sua vez são válidas antes destas mesmas manifestações fenoménicas. Estas proporções matemáticas têm uma validade inteligível e que justificam o que chamamos de mundo físico. Antes do cosmos físico já há uma estrutura racional que faz parte da estrutura do real - ela existe - e que não depende do tempo na medida em que é eterna. O logos pré-existe à realidade e, repito, no princípio é o verbo.
O mundo da razão não é, assim, espácio-temporal (ainda que também esteja no tempo e no espaço da física), o que significa que a estrutura do real não tem começo nem fim porque simplesmente existe e faz parte da substância pois o universo físico está dentro da substância como o nosso corpo está dentro da alma. Existe e pronto. A estrutura racional está fora do tempo e por isso é eterna e então, a razão pré existe à realidade; o logos pré-existe à realdade: no princípio era o verbo. Estou com isto a fazer um juízo reflexivo ou meditativo.
Fé, graça ou, e voltando a kant, juízo reflexivo teleológico, é, nada mais, que aquele juízo reflexivo ou supraracional - e já lá iremos continuar com a reflexão sobre isto do que é ser racional - ou dos conceitos determinados da ciência), que nos leva, de uma forma espontânea, a pensar no sentido do mundo, de um mundo que tem um plano, uma organização, um propósito e uma lei; que o mundo tem um sentido; e é, assim, aquele juízo que, apenas a título de exemplo, qualquer investigador ou cientista (ou qualquer um de nós), quando analisamos um fenómeno particular, certamente teremos de dizer: este fenómeno particular, que eu procuro regularizar, está enquadrado dentro de um mundo organizado. O juízo científico, racional, dos conceitos determinados, fenoménico, pressupõe, assim, o juízo reflexivo, também ele racional, ainda que de conceitos indeterminados e do domínio do númeno, da metafísica, da teleologia ou da finalidade divina o que é dizer, do essencial ou substancial: o que permanece enquanto estrutura verdadeira da realidade. Sim, não consigo "provar" isto mas consigo sentir isto e sei que isto resulta de uma meditação para quem a ela se quiser abrir. E isto não é, também, racionalidade? E se estamos a pensar e a sentir um sentido do mundo não teremos de pressupor um autor deste sentido, o que é dizer, Deus? Não teremos de pressupor algo de inteligível nas regras da lógica mas também nos fenómenos da física?
Numa tentativa de síntese final – e já no oitavo aspecto – digo que conhecer representa, no seu essencial, relacionarmos-nos racional e criticamente com uma tradição. É, de facto, na dialética entre raciocínio individual/reflexão na tradição que se estabelece todo o processo da Verdade. Reconhecer o que a tradição tem de meritório, de valor e de critério de verdade, ou seja, tudo aquilo que, mesmo criado pelos homens - como é o caso das obras de arte -, pelo facto de parecerem pertencer a uma dimensão superior e ulterior ganham autonomia relativamente aos seus criadores. Estes são limitados, mas não a beleza que sentimos ser ilimitada (digo ilimitada pois parece transpor as barreiras do tempo) das suas grandes obras. Obras que são sentidas pelos humanos. Perduram no tempo e que só são belas por nos lembrarem que também nós podemos ser ilimitados numa outra dimensão (e na medida em que procurarmos sempre abandonar a tendência para o mal também ela originária).
Temos, assim, uma dimensão infinita. É esta dimensão infinita (não acaba, não diminui com o tempo e, pelo contrário, solidifica-se) que sentimos presente na Stabat Mater de Pergolesi, na BWV 1043 de Bach, no concerto para clarinete ou na Ave Verum Coorpus de Mozart, na nona sinfonia de Bethoveen, na Missa em B Menor de Bach (o minuto 38 é talvez o momento mais elevado da história da arte) - ou a Qui tollis peccata mundi -
, na arrepiante e reveladora Hymn of the Cherubim de Tchaikovsky, nas profundíssimas composições de Arvo Part, compositor vivo e crente que nos deu a Paixão de Adão ou a Spiegel im Spiegel, a Salve Regina e a sublime cecilia vergine romana, possivelmente a música mais bela dos nossos dias; passando pela clássica Luz Eterna de Edward Elgar ou então a "Gabriel`s Oboe" (The mission main theme)do assumidamente crente Ennio Morriconi e em tantas outras obras escritas, musicais, performativas ou visuais. É isto que nos quer dizer Karl Popper quando nos fala do mundo três, o mundo das criações objectivas da mente humana como as expressões linguísticas, os registos perenes da realização humana e intelectual, as bibliotecas, os museus e os utensílios. No fundo, as criações humanas que só se desligam dos homens na medida em que, de alguma forma, sempre deles foram independentes enquanto meta-objetos que medeiam estes humanos e o divino; o temporal e o eterno, estando em nós mas sendo "divinos".
Mediante o uso da razão e da fé, conhecer é, assim - e também – intuir empiricamente. Intuir sobre esta nossa maravilhosa tradição. Facilmente se vê e crê que não é possível a sobrevivência de uma ética – seja ela qual for – ou então a sobrevivência de um qualquer objeto que se quer artístico -, sem um critério absoluto, que este critério absoluto é único, transcendente, sagrado e é, categoricamente, Deus. Só isso explica a própria hermenêutica da fé, que ao contrário da historicista soube ver que a história de Cristo não teria a sua relevância se não fosse, de facto, sagrada; que as obras que envolvem a paixão de Cristo – é disso exemplo o mais recente filme realizado por Mel Gibson A Paixão de Cristo – não teria o mesmo impacto e sobretudo beleza se não se tratasse de uma história reveladora de um reino bem diferente dos falsos reinos humanos.
O nono ponto serve para reflectirmos sobre um conceito que me tem ocupado durante alguma parte da minha vida, e que se prende com a noção de (ser) conservador. Quando escrevo que conhecer é intuir na e sobre a tradição, quero esclarecer alguns aspetos:
- O primeiro, é o de que não se intui sobre o que quer que seja verdadeiro– parto assim deste princípio mesmo admitindo que há, de facto, vocações, elevadas inteligências e a graça santificante – sem um estudo que deve ser o maximamente aprofundado sobre a nossa história, a história das ideias políticas e religiosas, a história da arte e a história das ciências em geral. Mais do que isto, não é possível intuir o que quer que seja de verdade sem uma mínima reflexão do que tem sido a nossa vida e sobre a forma como vamos evoluindo intelectualmente e ganhando, assim, maturidade. Percebemos que a tradição é parte integrante do que somos e de que não é com rupturas universalistas e/ou lógicas de “homem novo” (individualismo) ou “sociedade nova e justa” (socialismo) que se apreende aquela que é a nossa humanidade. Pelo contrário, é respeitando ideias como mérito, esforço individual, ética absoluta hierarquia institucional, reformas sociais bem como a importância das instituições democráticas que foram testadas pelo tempo (por nos respeitarem e elevarem enquanto humanos) que compreendemos o que neste mesmo tempo foi alicerçando a nossa humanidade. Qualquer regime duradouro e estável só pode funcionar quando é suportado por tradições, e por tradições de corpo intermédio como a família, a igreja, as comunidades locais e as instituições sociais.
- O segundo, e finalizo, prende-se com a intuição básica de que um conservador procura o eterno e não o efémero, tem um fascínio especial pelo que é clássico, pelo que atinge este estatuto. Ora, o clássico não é o que é velho, como alguns poderão considerar, mas é o que é eterno.
Ser conservador implica, assim, ter algumas reservas sobre o coletivismo e as modas superficiais, o instintivo e, portanto, o não refletido, mas também contra o individualismo ou racionalismo político dogmático - contra as ideologias. Ser conservador é procurar, com humildade e prudência, “escutar” o tempo com respeito por este tempo e pelas tradições e objetos locais que o tempo consolidou enquanto boas tradições e bons objetos. É ter, também, a capacidade de ver, nestes bons objetos e boas tradições, aquele indício divino que os torna belos, verdadeiros porque eternos, verdadeiros porque divinos. Ser conservador implica, assim, a percepção de que a salvação não vem do capitalismo/liberalismo/materialismo ou então do marxismo/materialismo, pois um conservador entende, tão simplesmente, que a salvação não vem da matéria mas sim do espírito. Não vem da economia mas sim da metafísica; não vem do conhecimento mas sim de um acontecimento: o acontecimento de Cristo.
Relativamente ao que designamos de grande arte, parece-me mais do que evidente: as manifestações artísticas mais elevadas são, de facto, direccionadas para o incorpóreo, e isto só acontece por sentirmos que o nosso foco está centrado no essencial que é a nossa humanidade; precisamente, a nossa alma incorpórea. Isto acontece ao artista que realiza a sua obra, mas sobretudo ao apreciador de arte que contempla o que o aproxima, verdadeiramente, do belo, do bem e da verdade, realidades que existem de facto e que as grandes mentes delas se aproximam.
A minha atenção dirige-se, com especial foco - e nos nossos dias - à arte de Arvo Part, poeta e compositor que deve ser amplamente divulgado em especial aos jovens, para que, e o quanto antes, possam sentir o que realmente importa e o que realmente desvela a humanidade. É profundamente lamentável que manuais escolares como os da disciplina de Psicologia não contemplem o conceito de alma, qual pretensão de se considerar que os nossos pais linguísticos Platão, Aristóteles, Sócrates; em especial os venerandos Santo Agostinho, Santo Anselmo e São Tomás de Aquino, Descartes ou Kant nada tenham dito de relevante quando, precisamente, o que de mais relevante ou perene foi dito por estes mestres consistiu, precisamente, no conceito de alma imortal. Tudo o resto foi naturalmente fruto do seu tempo e das inteligências mais elevadas, mas não este conceito, o de “alma”, resultado que é da participação divina das mais elevadas consciências.
Por muita importância que eu dê, e dou efectivamente, aos poetas (são eles que nos revelam os indícios de verdade), é ao fílosofo a que compete elucidar o pensamento humano em busca da verdade. É ao filósofo a quem compete falar-nos desta verdade. Muitíssimo raramente, na nossa historia e na mesma pessoa, encontramos reunidas estas duas qualidades essenciais, as de artista e filósofo. Arvo Part é, pois, um grande acontecimento.
Relativamente ao mundo enquanto ideia e/ou universo, convém esclarecer alguns aspetos que eu considero verdadeiramente importantes. O mundo sempre existiu e pode ser conhecido. Existe assim a ordem do ser, ainda que jamais possamos ter a descrição completa da ordem do ser (isso seria uma ideia despótica e psicótica). Não podemos, assim, conhecer de uma forma absoluta pois o mundo não se mostra de uma forma absoluta - é visto pelo meus olhos e mostra-se num determinado tempo e conforme as minhas necessidades; ele - o mundo/universo - não teve um começo e não terá um fim. Quando me refiro ao mundo, refiro-me ao que designamos de universo. Ora, este universo, ao contrário do que nos sugere Stephen Hawking, não é apenas um universo físico, mas sim toda a estrutura do real, o que inclui o universo do espírito. O belo, a liberdade, a verdade, o bem, as almas humanas e a lógica são exemplos de realidades espirituais, mas também o são do universo físico. Fazem assim parte da estrutura do real. É certo que são temporais, como é o universo físico, mas também estão fora do espaço e do tempo do universo físico. Por isso dizemos, de uma obra bela, que é intemporal, estando no tempo e fora do tempo, num espaço mas em todos os espaços e fora dele. Com a verdade e a ética dizemos o mesmo. Cristo é divino, como são as suas palavras pois foram ditas num tempo para todo o tempo por serem deste e fora do tempo são, pois, intemporais. Sim: o cristianismo é divino pela sua mensagem intemporal como a grande arte é intemporal ou espiritual, ainda que realidades da física. Pensemos, por exemplo na Pietá de Miguel Angelo. É uma realidade física e metafísica num tempo só. O credo de Arvo Part é uma realidade física e metafísica. O universo é, assim, físico e metafísico como já sugeria, e muitíssimo bem, o enormíssimo Aristóteles.
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[i] Aqui convém esclarecer a minha visão de ser humano enquanto aquele que é feito à imagem e semelhança de Deus. Nesse sentido, somos deiformes. Não sendo sobrenatural, a nossa natureza, ainda assim, participa na natureza divina.
[ii] Aqui terei de excluir as actividades desportistas e a prática científica quotidiana pelo facto de não se constituírem como uma forma de arte - ainda que, como sabemos, admitam (em especial a ciência), um elevado grau de criatividade.
[iii]Aquele que, numa de passagem a uma fase superior de abstração, universalidade.
[iv] No meu entender uma das maiores referências intelectuais dos nossos dias.
[v] Podia exemplificar, igualmente, com Mozart, mas também Beethoven ou Wagner, por ordem pessoal decrescente.
[vi] Remeto para a nota número IV da página anterior.
[vii] Ainda assim saliento o forte sentimento de comunidade e pertença como contributo importante dentro do pensamento Hegel.
[viii] Passo a ligeireza de ter comparado o primeiro com O segundo.
Martinho Moura

O quarto aspecto refere que a palavra dos grandes génios - ou seja dos seres a quem Deus atribuiu a mais elevada inteligência (dom natural) conjuntamente com a graça santificante (dom sobrenatural), é ´divina`[i] e não humana[ii]. É desta forma que, comummente, dizemos que as músicas de Bach ou Mozart são “divinas”, os escritos de Fernando Pessoa, António Vieira, Herberto Helder são intemporais. Curiosamente, mesmo quando se assumem como ateus ou agnósticos, parece haver, da parte de muitos dos nossos grandes manifestadores de sentido, uma especial categoria que, normalmente, lhes é aplicada (ou que eles próprios assim se auto- designam), como é o adjetivo de místico[iii]. Quando cito Ratzinger[iv] de que “ é Deus quem governa o mundo e não os homens”, melhor exemplo não podemos ter que a sublime música de Bach[v], compositor crente cuja obra continua a «governar» a história da arte; artista que «ensina» os artistas de hoje o genuíno sentido do belo, tal como os escritos de Aristóteles ensinam todos os que, hoje, procuram a sabedoria; assim como o livro dos livros ensina a viver aos que estão disponíveis a tudo o que é eterno e não efémero.
As grandes obras e os grandes mestres ensinam-nos, de facto, que dificilmente podemos falar em arte sem falarmos em sentido; que não é possível falar em sentido equívoco ou em múltiplos sentidos; que a arte só é humana na medida em que também é divina[vi] ou sagrada, o que é dizer, a grande arte é aquela que surge da natureza que lhe é intrínseca de glorificação de Deus (ainda que alguns artistas o não façam de maneira inteiramente consciente). No fundo, é o que acontece com aquela que é a nossa espécie superior: é porque somos deiformes (feitos à imagem e semelhança de Deus) que somos humanos, e/ou só somos humanos porque somos filhos de Deus. Aproveito para referir que um dos maiores erros de muitos dos filósofos e políticos da nossa contemporaneidade consiste, precisamente, em colocar os seres humanos no mesmo plano material dos restantes seres e matéria da/na natureza. É um erro tão grave como é incongruente o seu pensamento, mas assim o fizeram e fazem alguns do nossos públicos pensadores contemporâneos, como é o caso de Peter Singer ou Richard Dawkins, mas também cientistas como Stephen Hawking e, partindo, assim, de uma base filosófica que, no meu entender, é errada e perigosa. Ainda que estes mesmos pensamentos possam, pontualmente, trazer relevantes contributos para a discussão filosófica, é de salientar que os princípios ou alicerces das suas filosofias são um erro e, por isso, tal como acontece com os pensamentos de Hegel[vii] ou Marx, mas também Foucault, Nietzsche, Freud ou Derrida, devem ser relativizados. A ideia de Hegel de que o real é racional e o racional é real está longe de ser um dado racional.
O ser humano é, assim, composto por matéria/corpo que, enquanto matéria, está sujeito às leis da causalidade - mas é importante referir que estas leis não são cegas ou determinísticas (ainda que mecânicas) e isto dá-se porque, em última instância, "é Deus quem governa o mundo e não os homens". Julgo que é neste sentido que a filosofia do conhecimento de Kant poderá, de facto, fazer algum sentido. Não conhecemos a realidade em si (a não ser de uma forma reflexiva), ainda que ela exista e seja, evidentemente, conhecida por Deus - até porque Dele participa-; assim como Aristóteles já o fizera magistralmente ao sugerir que não conhecemos a totalidade do objeto apenas na medida em que o ser do objeto pertence - e é - Deus - toda a essência é naturalmente participação divina. Para além do corpo, o ser humano é também constituído por uma alma. Esta alma existe de facto e o seu conhecimento é de foro racional: é-o na medida em que é a nossa racionalidade prática que nos revela isso (trata-se da experiência prática de liberdade e da própria consciência moral).
Ora, se a matéria obedece às leis da natureza, a alma deve obedecer às leis de Deus (e ainda que de uma forma filosófica ou racional, é isto que nos diz Immanuel Kant com a formulação do imperativo categórico, mas é sobretudo isto que nos diz Deus com os dez mandamentos[viii]). É importante referir, aqui, que, ao contrário do que parece sugerir grande parte da sociologia dos últimos anos, não é a sociedade que determina o que é o homem mas o homem que contém, em si mesmo e por via racional - mas sobretudo por educação religiosa e conhecimento do evangelho - os mecanismos de determinação da ética e moral que determinam uma sociedade sadia.
O quinto ponto - e sem deferir muito do que foi então dito - é de natureza política, e aponta o comunismo como o maior erro da nossa mais recente história e história política. Ao defender que é a matéria que salva o homem, o comunismo está a negar, precisamente, o que o humano tem de mais essencial e/ou humano: a sua razão, a sua vontade; a sua inteligência, a sua capacidade de vislumbrar os valores que são verdadeiros porque absolutos ou eternos.
O sexto ponto refere que o materialismo não se encontra apenas no comunismo, mas em todas as políticas de matriz materialista cuja natureza ideológica as envolve em constantes contradições, gravíssimos erros morais e frivolidades tão típicas, claro está, do materialismo. Carente que é de capacidade para alcançar sentido, e bem mais apenso à demagogia, o materialismo anula o que de essencial o homem tem e favorece o que este tem de menos essencial, mais violento e mais buçal). Este último aspecto é até frequentemente notório a quem, mesmo que involuntariamente (não vou aqui entrar na psicologia das escolhas pessoais, filosóficas ou políticas) se deixa enredar pelo materialismo, apresentando, de um modo geral, défice de sentido crítico ou pensamento autónomo, défice de carisma e uma inexplicável (ou explicável pois materialista) busca de visibilidade ou notoriedade (a procura de mediatismo superficial é apenas mais uma forma de materialismo), bem como a falta de autonomia, de sentido crítico ou de educação, de reserva/ recato ou, então, falta de experiência e genuína capacidade meditativa.
O sétimo ponto começa onde acaba o sexto, e defende que há uma tendência dos pensadores materialistas em considerar a liberdade associada a qualquer coisa de gregário, ou seja, de que a liberdade tem de ser entendida de uma forma complexa ou espessa, sempre dependente de qualquer coisa externa a ela própria ou à ação por ela desencadeada - seja a sociedade, os impulsos sexuais, a capacidade financeira, o inconsciente... Ora, é a própria história - nomeadamente a história da arte - que nos revela, precisamente, o contrário, pois não só as mais elevadas demonstrações da inteligência humana surgiram de uma forma relativamente isolada (ou de forma individual – recordo que a verdadeira criação (ou o que eu chamo de ponto de criação)- é, necessariamente, um processo solitário, único e ´original), como é também frequente vermos que as grandes obras de arte surgem em fase inicial das vidas dos seus criadores, "alheados", assim, do mundo que os circunda (ainda que não alheados de Deus na medida em que Dele são originários- as grandes obras de arte, insisto, são o reflexo sensível da consciência divina - e isto não é redutor para a obra de arte, apenas na medida em que ela - a arte - que é paralelamente importante apenas na medida em que nos lembra que somos de um nível intemporal por estarmos neste e/mas também fora deste mundo - é isto que explica que a grande arte não tenha, de facto, referência empírica, concreta ou vulgar e julgo que deveríamos, todos, pensar nisto - é de lamentar a insistência no subjetivismo de gosto em questões artísticas, que não conduzem, bem pelo contrário, à elevação do espírito humano. Devemos ser tolerantes e curiosos, perceber que a criação envolve sentimentos locais e temporais, as paixões (assim como, evidentemente, o experimentalismo), mas devemos saber, também, que a grande arte toca a todos precisamente porque enaltecer o espírito metafísico de todos os seres humanos. Insisto: no que toca à grande arte não devemos insistir na tónica da subjetividade, do empirismo ou subjetivismo se não quisermos parecer intelectualmente subdesenvolvidos e/ou moralmente deslocados do essencial. Há, acredito, um juízo subjetivo, sim, mas que, ao mesmo tempo, é universal, e este, foi, decisivamente, o grande contributo teórico de Immanuel Kant plasmado especialmente na sua terceira crítica: a ideia de um senso comum que em nada difere da constatação de uma consciência religiosa.
É assim a própria história que nos vem dizer que o erro está, essencialmente, nas massas acríticas e no homem massa (não preciso de recordar a condenação histórica de Cristo) e de que, pelo contrário, a virtude bem mais associada à pessoa relativamente isolada ou teista, ao visionário, ao santo, ao pensador, ao artista, ao crítico ou/ e ao "criador", àquele que dialoga internamente e criticamente com a sua tradição; e ainda que esta mesma história nos mostre a figura do ditador sanguinário, estaremos já a falar de psicopatologia e não de uma razão ´divina`. A razão ´divina` (ou agraciada) não ofende, não desrespeita e não aniquila, mas, isso sim, e apenas, a nossa animalidade. Quando me refiro ao homem massa, refiro-me ao homem descrente na sua capacidade racional de averiguar sobre o bem e a verdade, e refiro-me, paralelamente, a um conjunto de pensadores que, ainda que involuntariamente - quero assim acreditar - acabaram por contribuir para esta perigosa anulação do sujeito ou de um "eu" moral independente de um mundo exterior. Um eu que, não sendo divino, existe para reconhecer o divino - é neste sentido que a santidade se constitui como o objetivo último do ser humano. Trata-se, assim, de um eu filosófico que só ama e procura a sabedoria porque sabe que a sabedoria existe; um eu reflexivo que tem uma existência neste mas uma outra no verdadeiro mundo; um eu religioso que não cessa de ver no outro um filho de Deus - que vê no outro humano um fim e não um meio; um eu religioso que sabe que a verdade (e em especial a verdade moral ou a ética absoluta) existe e que, no seu pensamento, tem suficientes indícios de que a verdade é inseparável da existência de um observador externo, ou seja, de Deus. Refiro-me, especialmente, no campo da ética ou na ideia de consciência. Há um eu religioso que reconhece a importância dos sacramentos para o contínuo exame de consciência e salvação humana, que o faz pela reflexão individual e pelo conhecimento histórico.
Assim sendo, esta consciência é inseparável da noção de que estamos a ser observados por Deus. Não existe outra possibilidade de falar em consciência moral sem ser de uma maneira necessariamente superficial: "em consciência e perante Deus fiz o que quer que eu tenha feito...".
O sétimo ponto dá conta de mais uma argumentação deficitária dos pensadores materialistas, a saber, a de que, como não temos os mesmos talentos, alguns terão de ser mais favorecidos na distribuição da riqueza. O mesmo se passa com a capacidade financeira, admitindo, assim, favorecer quem tem menos. O erro desta argumentação é, naturalmente, duplo, na medida em que encara o homem como alguém fechado na sua falta de capacidades ou genial por decreto, quando a mais elementar psicologia e/ou análise sociológica no diz que o ser humano é, isso sim, uma possibilidade de ser, sobretudo quando lhe é dada oportunidade para tal e, em especial, a educação. Independentemente dos diferentes talentos que, de facto, possuímos, todos somos úteis e capazes de auto-realização. Todos somos geniais quando reconhecemos - basta para isso voltarmos o nosso pensamento para (e apenas a título de exemplo) o compositor Bach - de que o sentido da vida consiste, de facto, em glorificar Deus; não um Deus abstracto ou distante e de demonstração lógico-matemática (este não o vamos encontrar por muito que a especulação tenha, efectivamente, valor no plano do conhecimento) e que se quer glorificado, mas um Deus pessoal, de relação pessoal e que nos permite a felicidade num diálogo permanente e verdadeiramente existente.
Voltando à filosofia política, e relativamente à ideia de que o Estado deve favorecer quem tem menos possibilidade financeiras - e mesmo falando numa abordagem mais moderada e hodierna de promoção da igualdade de oportunidades - é mais uma vez a elementar psicologia que nos dá a resposta, pois subsidiar sem ensinar a obter financiamento e, sobretudo, a viver condignamente é, naturalmente, um convite ao laxismo, à preguiça física e intelectual, à paralisia do sentido crítico e auto-crítico e ético; da própria vontade, bem como à débil percepção de que é possível viver sem o basilar entendimento socrático de que «uma vida não refletida não é, efetiva e evidentemente, um modo de viver digno». O estado deve assim e, sim, intervir ou interferir com ajuda/apoio económico e financeiro em diversas situações (mesmo as mais emergentes como catástrofes naturais ou até económico-financeiras, epidemias ou doenças complexas/ crónicas) de que as nações não podem abdicar – ou de que o indivíduo carenciado tem, naturalmente, dificuldade em resolver situações de foro pessoal bastante complexas. Não se está, por isso, a defender uma política neo-liberal, ultra-liberal ou desumana mas, isso sim, de que este investimento público - importante e humanizado - bem como a aplicação de impostos têm de ser feitos de uma forma reflectida, parcimoniosa, profunda e meditativa - utilizando longos argumentos - de uma forma criteriosa e sem segundas intenções de promoção política pessoal; valorizando, antes de mais, a educação obrigatória, a segurança e todas as instituições cujo tempo consolidou como importantes para a elevação espiritual das comunidades. No fundo, a nossa liberdade e a sempre necessária elevação à essência do ser humano. O estado não pode promover uma liberdade irrefletida mas, e isso sim, uma liberdade que traz consigo uma reflexão profunda e uma análise de que a liberdade é inseparável de uma reflexão que exige necessariamente alguma forma de organização - e que, necessariamente, inclui a inclusão de conceitos como os de tradição, universalidade, justiça e aprofundamento histórico)
A questão nem deve, assim, ser colocada nos diferentes polos de liberal/conservador/estatal/revolucionário/reaccionário/esquerda/direita, mas, e melhor, de saber qual a política que mais se aproxima (ou que é mais concernente) aos princípios de universalidade. Ora, dentro do atual espectro político, e decorrente da minha linha de pensamento, parece-me que o erro está, naturalmente, na vertente materialista (com especial ênfase para toda e qualquer forma de marxismo cultural) , bem como a virtude estará, necessariamente, mais próxima da disposição conservadora de inspiração cristã. Não há engenho mais perigoso do que aquele em que qualquer entidade política, partido ou ideologia se quererem igualar a Deus, qual salvadores de indivíduos que, por sua vez, até se querem obscurecidos por ideias que os não elevam seja intelectual como moralmente. O grande inimigo do materialismo é, assim, a Igreja Católica, na medida em que é o Cristianismo que eleva o espírito e nos mostra o que é a verdadeira ou/e mesmo a única forma de liberdade e consciência. Obviamente, e muito lamentavelmente - mas, reconheço, naturalmente - que as forças do materialismo não querem isto. Pelo contrário,o materialismo visa agentes sociais subdesenvolvidas para que os mesmos possam ser resgatados, não no sentido de os elevar moral e intelectualmente, mas de os afrouxar no entendimento, qual fantoches à merece dos pseudosalvadores - dalvador que, no fundo, seria o grande substituto de Cristo mas cheio de sinais e prodígios da mentira segundo a eficácia de Satanás.
O oitavo ponto aborda a questão essencial da tradição, e é este aspecto, importante e essencial, que deve ser aqui ressalvado. Não quero assim que se depreenda das minhas palavra que faço a apologia do indivíduo isolado, lógico porque detentor de princípios universais absolutos – isolado porque detentor da verdade; genial porque vislumbra antecipadamente princípios universais e mesmo absolutos no sentido de vislumbre metafísico enquanto possuidor de intuições intelectuais ou ideias inatas e que até poderá querer impor universalmente aos supostamente subdesenvolvidos e de uma forma violenta - tal seria totalitarismo e não humanismo). É certo que que o homem, tal como tão magistralmente o defendeu Kant - e já Platão mas também Aristóteles nos ensinaram - tem, de facto, a capacidade de intuir indícios de universalidade, nomeadamente fortes intuições éticas, mas só o faz porque está inserido numa tradição que não é em si absoluta porque é, muito mais, humana. Podemos mesmo dizer: só é absoluta porque é o resultado da limitada condição humana - de seres sensíveis que na sua condição sensível (e por isso inserida num espaço e num tempo), têm, ao mesmo tempo, a capacidade de nos nos revelarem, pela arte, ações e escrita, indícios de intemporalidade; e se a nossa fé e razão permitem aceder ao absoluto, melhor o fazem com o apoio de uma tradição, em especial religiosa e sobretudo artística, que recolhe do tempo e da história o que de melhor ela própria tem; o que mais de aproxima da universalidade subjetica. Fá-lo naquele salto que é sempre inseguro (estamos naturalmente no domínio da metafísica, da fé, do religioso ou sagrado), mas é o tal salto que é apenas possível na medida em que é suportado pela tradição. O homem atreve-se ao absoluto, ao intemporal - mesmo que não possamos ter uma certeza racional (para falar numa linguagem científica pós Newton) dessa presença metafísica (temos a fé - e ainda bem que a temos - a graça santificante que não impõe mas ama incondicionalmente). Convém aqui salientar que, nas questões mais essenciais do direito, do verdadeiro direito e não do direito aparente - daquele direito em que está em jogo a dignidade humana - o princípio maioritário não basta. Devemos, assim, procurar o critério em nós próprios e por isso numa relação com Deus.
A propósito do que se entende por certeza racional sobre a existência de Deus, convém aqui esclarecer um ponto, pois se é certo que, de facto, não temos dados empíricos de Deus para o colocar no plano da ciência comummente entendida nos dias de hoje, temos, sim, dados racionais para podermos falar em racionalidade de Deus e sobrepor a própria certeza da existência de Deus ou da metafísica aos estudos científicos e empíricos modernos ou à física, ainda que esta última seja imediatamente mais necessária - de notar a asserção de Aristóteles(a propósito da metafísica) de que "todas as outras ciências podem ser mais necessárias ao homem, mas superior a esta nenhuma". E é aqui que eu me corrijo a mim próprio, pois se, com Kant e na magistral Crítica da Faculdade de Julgar, percebemos que é possível sentir e refletir Deus (e é com este pensador que o sabemos definitivamente), é também por isso que, no nosso raciocínio, Deus ocorre de uma forma meditativa ou reflexiva - o que aliás também acontece na filosofia de Kant, em que o seu/nosso argumentar conduz, necessariamente, à metafísica.
Exemplifico com o argumento materialista (porque pobre)sobre o início do universo e sobre o que existiria antes do início e que causaria a sua existência. Ora, este argumento carece, de facto, de uma natureza lógica ou espiritual/universal, pois se pensarmos de uma forma material e, como disse já, relativamente pobre, pensamos, sim, no que seria o início da matéria e do universo ou mundo físico, mas acontece que antes de existir o mundo físico já existem as regras invioláveis da lógica e matemática que são as regras que alicerçam a aritmética ou o pensamento em geral e que não dependem do universo físico (ainda que sejam da ordem real). Ou seja, e para compreendermos melhor, sabemos que a lógica é formal e a sua necessidade não depende da experiência ou dados empíricos, e ainda que, para, e exemplificando, fazermos um qualquer cálculo como uma elementar soma, sintamos a necessidade de fazer uso dos dedos ou das intuições sensíveis (como contar duas mais três maçãs), sabemos, sim, que o resultado de dois mais três é igual a cinco e que a necessidade deste resultado é independente da experiência, o que significa que dois mais dois é igual a quatro mesmo se o mundo físico não exista, o que indica uma coisa óbvia: o pensamento é primacial relativamente à matéria - o sentido é primordial ao mundo e o verbo é, pois, divino ao ter um sentido e é, de facto, primordial. Não podem existir regras de pensamento sem um sentido ou qualquer coisa que possa existir e esta conclusão não precisa de ser do domínio demonstrativo mas é, muito mais, do meditativo. Falar de regras de possibilidade que não existem parece-me uma contradição pois o domínio da possibilidade da existência existe. Explico melhor: não o que é possível mas a possibilidade - a possibilidade de existir algo existe; não pode não existir pois sabemos que existe algo. Quando nos perguntamos quando começou o mundo físico, estamos, então, a ser, de facto, infantis. Teremos assim de nos questionar, isso sim, quando começou a estrutura do real. Sim: a razão pré-existe ao mundo físico, o que é dizer, e em termos bíblicos, no princípio era o verbo.
Recapitulando: as regras da verdade são anteriores à minha existência, do mundo e do universo físico e a verdade - que só pode ser de nível intelectual ou lógico porque universal - é, sim, independente da matéria/experiência ainda que esta última também seja do domínio da existência eterna. Todos os fenómenos da natureza, naturalmente, expressam proporções matemáticas, que por sua vez são válidas antes destas mesmas manifestações fenoménicas. Estas proporções matemáticas têm uma validade inteligível e que justificam o que chamamos de mundo físico. Antes do cosmos físico já há uma estrutura racional que faz parte da estrutura do real - ela existe - e que não depende do tempo na medida em que é eterna. O logos pré-existe à realidade e, repito, no princípio é o verbo.
O mundo da razão não é, assim, espácio-temporal (ainda que também esteja no tempo e no espaço da física), o que significa que a estrutura do real não tem começo nem fim porque simplesmente existe e faz parte da substância pois o universo físico está dentro da substância como o nosso corpo está dentro da alma. Existe e pronto. A estrutura racional está fora do tempo e por isso é eterna e então, a razão pré existe à realidade; o logos pré-existe à realdade: no princípio era o verbo. Estou com isto a fazer um juízo reflexivo ou meditativo.
Fé, graça ou, e voltando a kant, juízo reflexivo teleológico, é, nada mais, que aquele juízo reflexivo ou supraracional - e já lá iremos continuar com a reflexão sobre isto do que é ser racional - ou dos conceitos determinados da ciência), que nos leva, de uma forma espontânea, a pensar no sentido do mundo, de um mundo que tem um plano, uma organização, um propósito e uma lei; que o mundo tem um sentido; e é, assim, aquele juízo que, apenas a título de exemplo, qualquer investigador ou cientista (ou qualquer um de nós), quando analisamos um fenómeno particular, certamente teremos de dizer: este fenómeno particular, que eu procuro regularizar, está enquadrado dentro de um mundo organizado. O juízo científico, racional, dos conceitos determinados, fenoménico, pressupõe, assim, o juízo reflexivo, também ele racional, ainda que de conceitos indeterminados e do domínio do númeno, da metafísica, da teleologia ou da finalidade divina o que é dizer, do essencial ou substancial: o que permanece enquanto estrutura verdadeira da realidade. Sim, não consigo "provar" isto mas consigo sentir isto e sei que isto resulta de uma meditação para quem a ela se quiser abrir. E isto não é, também, racionalidade? E se estamos a pensar e a sentir um sentido do mundo não teremos de pressupor um autor deste sentido, o que é dizer, Deus? Não teremos de pressupor algo de inteligível nas regras da lógica mas também nos fenómenos da física?
Numa tentativa de síntese final – e já no oitavo aspecto – digo que conhecer representa, no seu essencial, relacionarmos-nos racional e criticamente com uma tradição. É, de facto, na dialética entre raciocínio individual/reflexão na tradição que se estabelece todo o processo da Verdade. Reconhecer o que a tradição tem de meritório, de valor e de critério de verdade, ou seja, tudo aquilo que, mesmo criado pelos homens - como é o caso das obras de arte -, pelo facto de parecerem pertencer a uma dimensão superior e ulterior ganham autonomia relativamente aos seus criadores. Estes são limitados, mas não a beleza que sentimos ser ilimitada (digo ilimitada pois parece transpor as barreiras do tempo) das suas grandes obras. Obras que são sentidas pelos humanos. Perduram no tempo e que só são belas por nos lembrarem que também nós podemos ser ilimitados numa outra dimensão (e na medida em que procurarmos sempre abandonar a tendência para o mal também ela originária).
Temos, assim, uma dimensão infinita. É esta dimensão infinita (não acaba, não diminui com o tempo e, pelo contrário, solidifica-se) que sentimos presente na Stabat Mater de Pergolesi, na BWV 1043 de Bach, no concerto para clarinete ou na Ave Verum Coorpus de Mozart, na nona sinfonia de Bethoveen, na Missa em B Menor de Bach (o minuto 38 é talvez o momento mais elevado da história da arte) - ou a Qui tollis peccata mundi -
, na arrepiante e reveladora Hymn of the Cherubim de Tchaikovsky, nas profundíssimas composições de Arvo Part, compositor vivo e crente que nos deu a Paixão de Adão ou a Spiegel im Spiegel, a Salve Regina e a sublime cecilia vergine romana, possivelmente a música mais bela dos nossos dias; passando pela clássica Luz Eterna de Edward Elgar ou então a "Gabriel`s Oboe" (The mission main theme)do assumidamente crente Ennio Morriconi e em tantas outras obras escritas, musicais, performativas ou visuais. É isto que nos quer dizer Karl Popper quando nos fala do mundo três, o mundo das criações objectivas da mente humana como as expressões linguísticas, os registos perenes da realização humana e intelectual, as bibliotecas, os museus e os utensílios. No fundo, as criações humanas que só se desligam dos homens na medida em que, de alguma forma, sempre deles foram independentes enquanto meta-objetos que medeiam estes humanos e o divino; o temporal e o eterno, estando em nós mas sendo "divinos".
Mediante o uso da razão e da fé, conhecer é, assim - e também – intuir empiricamente. Intuir sobre esta nossa maravilhosa tradição. Facilmente se vê e crê que não é possível a sobrevivência de uma ética – seja ela qual for – ou então a sobrevivência de um qualquer objeto que se quer artístico -, sem um critério absoluto, que este critério absoluto é único, transcendente, sagrado e é, categoricamente, Deus. Só isso explica a própria hermenêutica da fé, que ao contrário da historicista soube ver que a história de Cristo não teria a sua relevância se não fosse, de facto, sagrada; que as obras que envolvem a paixão de Cristo – é disso exemplo o mais recente filme realizado por Mel Gibson A Paixão de Cristo – não teria o mesmo impacto e sobretudo beleza se não se tratasse de uma história reveladora de um reino bem diferente dos falsos reinos humanos.
O nono ponto serve para reflectirmos sobre um conceito que me tem ocupado durante alguma parte da minha vida, e que se prende com a noção de (ser) conservador. Quando escrevo que conhecer é intuir na e sobre a tradição, quero esclarecer alguns aspetos:
- O primeiro, é o de que não se intui sobre o que quer que seja verdadeiro– parto assim deste princípio mesmo admitindo que há, de facto, vocações, elevadas inteligências e a graça santificante – sem um estudo que deve ser o maximamente aprofundado sobre a nossa história, a história das ideias políticas e religiosas, a história da arte e a história das ciências em geral. Mais do que isto, não é possível intuir o que quer que seja de verdade sem uma mínima reflexão do que tem sido a nossa vida e sobre a forma como vamos evoluindo intelectualmente e ganhando, assim, maturidade. Percebemos que a tradição é parte integrante do que somos e de que não é com rupturas universalistas e/ou lógicas de “homem novo” (individualismo) ou “sociedade nova e justa” (socialismo) que se apreende aquela que é a nossa humanidade. Pelo contrário, é respeitando ideias como mérito, esforço individual, ética absoluta hierarquia institucional, reformas sociais bem como a importância das instituições democráticas que foram testadas pelo tempo (por nos respeitarem e elevarem enquanto humanos) que compreendemos o que neste mesmo tempo foi alicerçando a nossa humanidade. Qualquer regime duradouro e estável só pode funcionar quando é suportado por tradições, e por tradições de corpo intermédio como a família, a igreja, as comunidades locais e as instituições sociais.
- O segundo, e finalizo, prende-se com a intuição básica de que um conservador procura o eterno e não o efémero, tem um fascínio especial pelo que é clássico, pelo que atinge este estatuto. Ora, o clássico não é o que é velho, como alguns poderão considerar, mas é o que é eterno.
Ser conservador implica, assim, ter algumas reservas sobre o coletivismo e as modas superficiais, o instintivo e, portanto, o não refletido, mas também contra o individualismo ou racionalismo político dogmático - contra as ideologias. Ser conservador é procurar, com humildade e prudência, “escutar” o tempo com respeito por este tempo e pelas tradições e objetos locais que o tempo consolidou enquanto boas tradições e bons objetos. É ter, também, a capacidade de ver, nestes bons objetos e boas tradições, aquele indício divino que os torna belos, verdadeiros porque eternos, verdadeiros porque divinos. Ser conservador implica, assim, a percepção de que a salvação não vem do capitalismo/liberalismo/materialismo ou então do marxismo/materialismo, pois um conservador entende, tão simplesmente, que a salvação não vem da matéria mas sim do espírito. Não vem da economia mas sim da metafísica; não vem do conhecimento mas sim de um acontecimento: o acontecimento de Cristo.
Relativamente ao que designamos de grande arte, parece-me mais do que evidente: as manifestações artísticas mais elevadas são, de facto, direccionadas para o incorpóreo, e isto só acontece por sentirmos que o nosso foco está centrado no essencial que é a nossa humanidade; precisamente, a nossa alma incorpórea. Isto acontece ao artista que realiza a sua obra, mas sobretudo ao apreciador de arte que contempla o que o aproxima, verdadeiramente, do belo, do bem e da verdade, realidades que existem de facto e que as grandes mentes delas se aproximam.
A minha atenção dirige-se, com especial foco - e nos nossos dias - à arte de Arvo Part, poeta e compositor que deve ser amplamente divulgado em especial aos jovens, para que, e o quanto antes, possam sentir o que realmente importa e o que realmente desvela a humanidade. É profundamente lamentável que manuais escolares como os da disciplina de Psicologia não contemplem o conceito de alma, qual pretensão de se considerar que os nossos pais linguísticos Platão, Aristóteles, Sócrates; em especial os venerandos Santo Agostinho, Santo Anselmo e São Tomás de Aquino, Descartes ou Kant nada tenham dito de relevante quando, precisamente, o que de mais relevante ou perene foi dito por estes mestres consistiu, precisamente, no conceito de alma imortal. Tudo o resto foi naturalmente fruto do seu tempo e das inteligências mais elevadas, mas não este conceito, o de “alma”, resultado que é da participação divina das mais elevadas consciências.
Por muita importância que eu dê, e dou efectivamente, aos poetas (são eles que nos revelam os indícios de verdade), é ao fílosofo a que compete elucidar o pensamento humano em busca da verdade. É ao filósofo a quem compete falar-nos desta verdade. Muitíssimo raramente, na nossa historia e na mesma pessoa, encontramos reunidas estas duas qualidades essenciais, as de artista e filósofo. Arvo Part é, pois, um grande acontecimento.
Relativamente ao mundo enquanto ideia e/ou universo, convém esclarecer alguns aspetos que eu considero verdadeiramente importantes. O mundo sempre existiu e pode ser conhecido. Existe assim a ordem do ser, ainda que jamais possamos ter a descrição completa da ordem do ser (isso seria uma ideia despótica e psicótica). Não podemos, assim, conhecer de uma forma absoluta pois o mundo não se mostra de uma forma absoluta - é visto pelo meus olhos e mostra-se num determinado tempo e conforme as minhas necessidades; ele - o mundo/universo - não teve um começo e não terá um fim. Quando me refiro ao mundo, refiro-me ao que designamos de universo. Ora, este universo, ao contrário do que nos sugere Stephen Hawking, não é apenas um universo físico, mas sim toda a estrutura do real, o que inclui o universo do espírito. O belo, a liberdade, a verdade, o bem, as almas humanas e a lógica são exemplos de realidades espirituais, mas também o são do universo físico. Fazem assim parte da estrutura do real. É certo que são temporais, como é o universo físico, mas também estão fora do espaço e do tempo do universo físico. Por isso dizemos, de uma obra bela, que é intemporal, estando no tempo e fora do tempo, num espaço mas em todos os espaços e fora dele. Com a verdade e a ética dizemos o mesmo. Cristo é divino, como são as suas palavras pois foram ditas num tempo para todo o tempo por serem deste e fora do tempo são, pois, intemporais. Sim: o cristianismo é divino pela sua mensagem intemporal como a grande arte é intemporal ou espiritual, ainda que realidades da física. Pensemos, por exemplo na Pietá de Miguel Angelo. É uma realidade física e metafísica num tempo só. O credo de Arvo Part é uma realidade física e metafísica. O universo é, assim, físico e metafísico como já sugeria, e muitíssimo bem, o enormíssimo Aristóteles.
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[i] Aqui convém esclarecer a minha visão de ser humano enquanto aquele que é feito à imagem e semelhança de Deus. Nesse sentido, somos deiformes. Não sendo sobrenatural, a nossa natureza, ainda assim, participa na natureza divina.
[ii] Aqui terei de excluir as actividades desportistas e a prática científica quotidiana pelo facto de não se constituírem como uma forma de arte - ainda que, como sabemos, admitam (em especial a ciência), um elevado grau de criatividade.
[iii]Aquele que, numa de passagem a uma fase superior de abstração, universalidade.
[iv] No meu entender uma das maiores referências intelectuais dos nossos dias.
[v] Podia exemplificar, igualmente, com Mozart, mas também Beethoven ou Wagner, por ordem pessoal decrescente.
[vi] Remeto para a nota número IV da página anterior.
[vii] Ainda assim saliento o forte sentimento de comunidade e pertença como contributo importante dentro do pensamento Hegel.
[viii] Passo a ligeireza de ter comparado o primeiro com O segundo.
Martinho Moura
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