Filosofia para adolescentes? Heidegger
Segundo a maior religião do ocidente, o demónio existe.
Jesus expulsou demónios pois possuía autoridade divina.
O Homem de hoje acredita bem menos em demónios e ainda menos na existência de
Deus. O Mal é maior que a própria maldade humana, mas os filósofos colocam utopias
no lugar de Deus, para, desmontado o sistema, termos o paraíso na terra. O mal é, hoje,
vencido sem a necessidade de Deus. Sartre, Nietzsche ou Heidegger partem deste
mesmo princípio: o do Super-Homem. Tudo o que os antecedeu está errado, e o Super-
Homem prescinde da essência e da forma substancial (a não ser daquela que ele próprio
cria em autenticidade). A metafísica, o logos, o transcendenal, a fenomenologia são
desvalorizadas em nome de uma possibilidade retórica com laivos de incipiente poética
de sustento revolucionário.
Heidegger critica a metafísica de Platão para escorrer, logo em seguida, toda a
metafísica ocidental. O conhecimento não é uma relação entre um sujeito e um objeto;
este objeto - incluindo o que pensa o ser - não deve ser esquecido em nome do
sujeito/objeto matemático da modernidade. A ideia de representação está extenuada,
mas a verdade dá-se na linguagem. O ser habita na linguagem, mas, para Ser, o seu
espaço não pode ser o da linguagem ordinária. Só a linguagem do poeta pode escrever o
Ser.
Acontece que o ser de Heidegger não tem de Ser. O Ser é o nada evidente no
sentimento genuíno de angústia. A angustia do ser-para-a-morte traduz a nulidade dos
nossos projetos, apenas superada pela existência autêntica da possibilidade de ser dada
ao homem novo. Urge voltar às coisas mesmas, em seu estado livre de teorias,
hipóteses, doutrinas, concessões metafísicas e antimetafísicas (também metafísicas) que
aprisionam as coisas. Estar à escuta, ser o pastor do Ser, cuidar do ser significa cuidar
das coisas (dos outros) em sua liberdade e essência - em verdade.
A contece que voltar às coisas é voltar às formas substanciais do ocidente das quais Heidegger se
pretende afastar. Voltar às coisas é o que Platão e Aristóteles defendem.
Os gregos não aprisionaram o Ser ou as coisas no ser mas, isso sim, falam-nos de um
mundo perfeito fugidio às nossas imperfeições teóricas, mas que o homem sabe que
existe na simples apreensão e genuína intuição; na percepção inediata. Aristóteles é o
filósofo das coisas do mundo, e ao apreender a substância, a forma, sabemos que, nestes
filósofos, há sentido: um sentido prévio independente do homem mas dependente da
inteligência universal.
A “beleza” das palavras de Heidegger encanta a adolescência, mas não a maturidade.
O genuíno fundamento da ciência é o que torna a ciência Ciência (como diria Platão). O
ideal da ciência é ela ser teleológica; tem um telos prévio definido para que possa
funcionar. É a verdade substancial (único telos que sustenta e se sustenta) tal como a
defende Platão, mas também filósofos como Kant 1 : o Bem, o Belo e a Verdade.
Mais genuíno do que Platão, é Cristo quem nos fala no Verdadeiro Reino. Se
Heidegger acerta que devemos voltar às coisas mesmas - mais objeto e menos sujeito –
e libertas da metafísica (a que defende, por exemplo, que só tem sentido o que é
matematizável); Heidegger falha ao rejeitar o Ser do ocidente que sustenta as coisas
antes de qualquer raciocínio que delas possamos fazer 2 . Isto é uma evidência anterior a
palavras como a metafísica, ser ou autenticidade.
Voltar às coisas é voltar ao Demónio (mal substancial 3 ) e ao Deus (bem substancial).
Martinho Moura
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