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Friday, January 15, 2021

Filosofia para adolescentes? Heidegger

Segundo a maior religião do ocidente, o demónio existe. Jesus expulsou demónios pois possuía autoridade divina.      O Homem de hoje acredita bem menos em demónios e ainda menos na existência de Deus. O Mal é maior que a própria maldade humana, mas os filósofos colocam utopias no lugar de Deus, para, desmontado o sistema, termos o paraíso na terra. O mal é, hoje, vencido sem a necessidade de Deus. Sartre, Nietzsche ou Heidegger partem deste mesmo princípio: o do Super-Homem. Tudo o que os antecedeu está errado, e o Super- Homem prescinde da essência e da forma substancial (a não ser daquela que ele próprio cria em autenticidade). A metafísica, o logos, o transcendenal, a fenomenologia são desvalorizadas em nome de uma possibilidade retórica com laivos de incipiente poética de sustento revolucionário.      Heidegger critica a metafísica de Platão para escorrer, logo em seguida, toda a metafísica ocidental. O conhecimento não é uma relação entre um sujeito e um objeto; este objeto - incluindo o que pensa o ser - não deve ser esquecido em nome do sujeito/objeto matemático da modernidade. A ideia de representação está extenuada, mas a verdade dá-se na linguagem. O ser habita na linguagem, mas, para Ser, o seu espaço não pode ser o da linguagem ordinária. Só a linguagem do poeta pode escrever o Ser.      Acontece que o ser de Heidegger não tem de Ser. O Ser é o nada evidente no sentimento genuíno de angústia. A angustia do ser-para-a-morte traduz a nulidade dos nossos projetos, apenas superada pela existência autêntica da possibilidade de ser dada ao homem novo. Urge voltar às coisas mesmas, em seu estado livre de teorias, hipóteses, doutrinas, concessões metafísicas e antimetafísicas (também metafísicas) que aprisionam as coisas. Estar à escuta, ser o pastor do Ser, cuidar do ser significa cuidar das coisas (dos outros) em sua liberdade e essência - em verdade.      A contece que voltar às coisas é voltar às formas substanciais do ocidente das quais Heidegger se pretende afastar. Voltar às coisas é o que Platão e Aristóteles defendem. Os gregos não aprisionaram o Ser ou as coisas no ser mas, isso sim, falam-nos de um mundo perfeito fugidio às nossas imperfeições teóricas, mas que o homem sabe que existe na simples apreensão e genuína intuição; na percepção inediata. Aristóteles é o filósofo das coisas do mundo, e ao apreender a substância, a forma, sabemos que, nestes filósofos, há sentido: um sentido prévio independente do homem mas dependente da inteligência universal.      A “beleza” das palavras de Heidegger encanta a adolescência, mas não a maturidade. O genuíno fundamento da ciência é o que torna a ciência Ciência (como diria Platão). O ideal da ciência é ela ser teleológica; tem um telos prévio definido para que possa funcionar. É a verdade substancial (único telos que sustenta e se sustenta) tal como a defende Platão, mas também filósofos como Kant 1 : o Bem, o Belo e a Verdade.      Mais genuíno do que Platão, é Cristo quem nos fala no Verdadeiro Reino. Se Heidegger acerta que devemos voltar às coisas mesmas - mais objeto e menos sujeito – e libertas da metafísica (a que defende, por exemplo, que só tem sentido o que é matematizável); Heidegger falha ao rejeitar o Ser do ocidente que sustenta as coisas antes de qualquer raciocínio que delas possamos fazer 2 . Isto é uma evidência anterior a palavras como a metafísica, ser ou autenticidade.     Voltar às coisas é voltar ao Demónio (mal substancial 3 ) e ao Deus (bem substancial). Martinho Moura

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