Habermas
Seu eu tivesse de definir o trabalho do filósofo Habermas, eu diria, no essencial, o seguinte: uma filosofia com pouca profundidade.
Dizer que o trabalho de Habermas, enquanto filósofo, é pouco profundo, significa dizer o seguinte:
a) Tem como influência o pensamento de Kant, Hegel e Marx, bem como - e, naturalmente - a primeira geração da Escola de Frankfurt em pensadores como Max Horkheimer ou Adorno. Todos estes pensadores – ainda que, mo meu entender, Kant seja intelectualmente superior aos outros e a toda a Escola de Frankfurt – negam a existência da unidade do real, o que é dizer, negam a existência de uma verdade. É certo que, em Kant, esta unidade surge como um postulado ou fruto de um sentimento reflexivo (através, por exemplo, da arte), mas não como um dado. Ora, negar que existe a unidade do real - ainda que, realço, em Kant isto nunca tenha ficado suficientemente claro - e de que a podemos perceber ainda que, jamais, evidentemente, a possamos definir em termos quantitativos, é negar qualquer possibilidade de verdade e relegar, de imediato, a filosofia para o nada, o negativo e o mal – aparentemente, o único propósito da Escola de Frankfurt.
b) A sua filosofia, e o que ela terá de bom, não é original. Tudo o que ele diz já foi dito por pensadores como Kant ou mesmo Heidegger, bem como muitos pensadores no sé. XIX. No que concerne ao que ela tem de mal, pode resumir-se no seguinte: não existe o bem e não existe o mal, não existe o certo e o errado, mas sim o que atrapalha a destruição dos fundamentos da cultura ocidental, ou seja, o que atrapalha a existência de uma verdade intemporal apenas na medida em que ela terá de ser transcendente.
c) Não consegue sair do pragmatismo filosófico (ainda que com o nome de ética da discussão), que resulta, necessariamente, no relativismo filosófico e na falta de esperança e de respostas para a essência da vida – só posso responder à essência e não à contingência. Só posso debater com quem, como eu, busca a verdade; dificilmente com quem não acredita que existe uma verdade. Aqui volto a Kant: a discussão implica a possibilidade de acordo, de um senso comum. A questão que eu coloco é esta: ainda que a discussão e a busca da racionalidade sejam, evidentemente, meritórias, como defende, e bem, Habermas, é a esperança num acordo, ou seja - sempre mediado pela existência de uma verdade - que pressupõe qualquer diálogo.
d) Defende que a ontologia de Husserl, bem como a de Platão, resultam de um interesse; interesse semelhante ao positivismo, e existindo, assim, uma “real conexão entre a auto-compreensão positivista das ciências e a ontologia tradicional” (Gutting, 311) – um interesse de domínio, de segurança que impede a verdadeira liberdade e responsabilidade, e de que isto resultará, necessariamente, em domínio do homem pelo homem. Ora, esta conclusão não me parece sensata. O que resulta de domínio do homem pelo homem é, evidentemente, o positivismo que, necessariamente, degenera em ateísmo; e o ateísmo, esse sim, é o responsável em vermos, no outro que não a nossa pessoa, um objeto que podemos tratar como um meio e nunca como um fim em si mesmo. Só a dimensão metafísica, grega e cristã do indivíduo faz deste indivíduo uma pessoa; só a metafísica que resulta da visão de filósofos como Sócrates, Platão, Aristóteles … mas, também, a mundivisão cristã e a escolástica conferem dignidade ao ser humano. Ao mesmo tempo, não compreendeu as filosofias de Platão ou Husserl, e nem mesmo a de Kant (de quem se diz herdeiro). Na Crítica da Faculdade de Julgar, Kant pugna pela existência, no homem, de um juízo reflexivo. Este juízo é o juízo estético que, apesar de ser constituído por conceitos reflexivos (resultado que são de um livre jogo entre a imaginação e o entendimento e que não nos dão uma imagem determinada) que nos conferem um sentimento (que é também uma forma de conhecimento) de liberdade; a sensação de que temos mais do que um corpo determinado pelas leis inexoráveis da natureza; e uma sensação que resulta do absoluto desinteresse que existe na genuína contemplação estética. Mas, afinal, o que nos dá a experiência estética? Fácil para Kant: uma ontologia ou teoria perfeitamente organizada, ainda que não possa ser determinada em um conceito; que sabemos que existe só no momento de um estado de absoluto desinteresse e contemplação – isto sim provoca o sensus comunis. Significa isto o seguinte: a grande ontologia ocidental (e penso que já fui claro sobre qual é a grande ontologia ocidental) não resulta de um interesse e nem de uma vontade de objetividade ou domínio, mas de um desinteresse; de uma atitude contemplativa e verdadeiramente filosófica ou de vontade genuína de verdade. É verdade que a filosofia do cristão protestante Kant pode e deve ser criticada; é verdade que a filosofia de Kant pode e deve ser visto como alguém que, de alguma forma, condena a cultura ocidental à sua destruição - mas a sua filosofia não rejeita o pensamento religioso - em meu entender, pelo contrário.
e) Ao mesmo tempo que nega a unidade do real, vai procurar ter uma visão neutra ou desinteressada – como se tal fosse possível – das ciências exatas e humanas. Ora, se eu acredito que nelas há um interesse, é porque acredito, naturalmente, que o desinteresse é possível. Ora, isto foi o que Marx (de quem Habermas se procura afastar sem, pelos vistos, o conseguir), e sobretudo os seus seguidores, procurou fazer, determinar a sociedade numa falsa lei científica (supostamente neutra) e que apenas pode conduzir a uma visão materialista da realidade (visão, paradoxalmente, interesseira - é a matéria e não as leis eternas do espírito que salvam o homem) e que conduziu ao maior número de mortos que a nossa história algum dia assistiu. Não é possível fazer da humanidade uma lei determinada, e, evidentemente, o desinteresse, sim, é possível, mas apenas na medida em que ele visa o transcendente. Mover-me no trancendente, implica uma coisa: ausência de vontade de domínio do que quer que seja; ausência da necessidade própria dos conceitos determinados; percecão de que a razão técnica não esgota a nossa racionalidade e muito menos a humanidade (os conceitos determinados são necessários ao mundo físico, ao utilitarismo, ao calculismo, ao maquiavelismo, ao materialismo, à sobrevivência, mas são dispenáveis para a verdadeira estrutura do real, base da realidade manifesta e única forma de felicidade.
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