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Friday, March 10, 2006

Há bandas e bandas, discos e discos, músicos e músicos… música popular e sol-e-dó populista.


Não sou grande fã da música popular. A sua componente de puro entretenimento (no sentido da mera diversão e não da “saudável” abstracção) afasta-se da reflexão que, em todo o momento, deveria ser exigida.
Também não me situo entre aqueles que consideram que só a música clássica tem valor, mesmo sendo um apaixonado por este género, assim como ciente da ambiguidade deste conceito, tantas vezes mal utilizado (hisóricamente, o período clássico compreende o breve lapso que vai da segunda metade do século XVIII até aproximadamente ao primeiro quarto do século XIX e, mesmo assim, não deixa de ser um dos períodos mais importantes da história da música, repleto de alterações de grande alcance, com compositores como Haydn, Mozart e Beethoven). Tal atitude traduz-se em 'elitismo', que com facilidade se transforma em ostracismo, hostilidade e comodismo, no sentido de abandono de qualquer procura de inovação, único critério que considero absoluto no tocante à prática artística.
Compreendo o leitor… não é fácil ter que ouvir Robbie Williams só para conseguir aquele engate à muito desejado, correndo o risco de, ao rejeitarmos tal populismo acéfalo, acabarmos nós próprios sós ou entre aqueles que há muito tempo abandonaram a prática social. Mais medonho é ter de “digerir” aqueles pulcros jovens a fazerem versões à lá ópera dos grandes clássicos da Pop, obtendo mais lucros que os músicos originais, e sem terem de passar pelos sacrifícios que, tantas vezes, os genuínos compositores têm de suportar (a exclusão social, a marginalidade, a ausência de qualquer tipo de apoio, o desgaste intelectual… a morte precoce). Compreende-se que os gostos sejam relativos, mas momentos há em que o sentido crítico deveria preceder e sustentar o próprio gosto musical, sobretudo quando em causa estão básicas questões de justiça. Algum sentido crítico! Por favor!

Voltando à música popular, e sem querer exaurir a semântica deste conceito, nem tudo são espinhos! A música popular é aquela que sustenta o molde do refrão; daí ser um formato musical de fácil entrada no ouvido. Penso que é isto que melhor define este género, cujo estatuto ontológico está acima de qualquer indagação. Como em qualquer género musical, também este tem tido grandes momentos de criatividade, a que me incubo de apresentar alguns (que me são próximos e por isso do meu agrado, naturalmente).
Começo por uma banda inglesa dos anos setenta, os Smiths. As músicas são verdadeiramente bem conseguidas, aliadas que são de uma voz (a do vocalista Stephen Patrick Morrisey), invulgarmente melódica e de um timbre que nos conduz ao terraço do edifício da abstracção. Deveras hipnótico, muito comovente, apelativa à introspecção, ao negrume e taciturnidade próximos do sublime, à chistosa e jovial mancebia. Recomenda-se. Qualquer um dos discos.

Artur Moura

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