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Friday, March 19, 2010

Juízo de Gosto em Kant

O juízo de gosto é um juízo não determinado que incita à reflexão e não ao conhecimento lógico (mesmo que esta reflexão possua, à sua maneira, uma certa legalidade); a uma reflexão epistemológica e não à ciência acrítica e mecanicista (no que esta tem de redutor ), aos fins da natureza e humanidade e não às previsões físicas e astrofísicas (sem que ambas se possam excluir).
A faculdade da imaginação deixa de ser reprodutiva - papel que possuía na primeira Critica - para passar a ser produtiva e auto-activa, e na medida em que o seu elemento formal (porque indeterminado) abarca a totalidade deste mesmo juízo, este mantém a expressividade e liberdade característica dos conceitos estéticos e que são o resultado da apreciação das belas artes e belas formas naturais. A experiência estética não é aquela que resulta de um sentimento rude e grosseiro; aponta, sim, para a validade universal, manifesta no facto de querermos ver nos outros as mesmas respostas que temos quando fruímos esta experiência (mesmo que não lhes possamos conceder a “prova”).
A incidência no conceito de ideia estética representa, dentro da metafísica kantiana, um desabrochar de produção de inteligibilidade do próprio sujeito transcendental, que agora parece recusar “o automatismo ou a simples operação de absorção do caso particular na generalidade dos conceitos” , e permite à faculdade do juízo o seu uso reflexivo (muito diferente do automatismo fruto da acção conjunta das categorias do entendimento e das intuições sensíveis). É este uso reflexivo que não deixa de estar presente nos juízos teóricos, pois já não parece ser possível ajuizar o que quer que seja sem um qualquer ímpeto finalista ou regulador, como se a natureza possuísse um propósito, uma intencionalidade, uma finalidade ou sentido, mesmo que não possa – e até não deva - ser representado sob forma determinada. É um sentido que é sentido pelo sujeito mediante um “princípio da reflexão”, e que mais não faz que forçar o pensamento.
Os conceitos estéticos – e dizemos conceitos na medida em que são o resultado de um movimento do intelecto operado na experiência estética e que aspira à universalidade – apontam para uma representação que é em si um fim sem um qualquer fim que não a harmonia ou o livre jogo das nossas faculdades – as faculdades do entendimento, imaginação e razão. Kant explora este tema usando a expressão “conformidade a fins subjectivos”, num claro aceno à comunidade supra-sensível ou inteligível, o “reino dos fins”, dotada de causalidade livre. Isto mostra que a natureza bela, e as belas formas artísticas – mesmo que Kant esteja longe de as querer antropomorfizar – parecem dar-nos indícios da existência de princípios racionais que este filósofo não cessa de reivindicar, como é o caso da liberdade ou a existência de um entendimento criador que não o nosso.

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