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Friday, June 08, 2007

NEM TUDO É RELATIVO (texto originalmente escrito para o jornal Expressões da Escola Secundária Afonso de Albuquerque






Sou professor e investigador de humanidades, e por professor de humanidades entendo alguém que assume a responsabilidade pelo melhor do espírito humano, a conservação dos valores e dos ideais mais importantes. Poderão perguntar-me se é fácil assumir esta tarefa, se é algo que suscita tranquilidade e comodidade por si só. A minha resposta - e mesmo considerando tratar-se de uma missão verdadeiramente estimulante e edificante - é que não, não é. Implica uma dose de resistência e inconformismo para com uma época - a nossa - que é cada vez mais marcada pela ideia de que todos os juízos valem o mesmo, pela projecção da banalidade e do entretenimento fácil, e em que os critérios utilitaristas e calculistas se encontram na mesma proporção da ideia de que a verdade é subjectiva, dependente da vontade da maioria, diferentes culturas, ambientes e circunstâncias.
Criticar o gosto popular convida à acusação de elitismo, e defender distinções de valor – entre a virtude e o vício, o belo e o feio, o sagrado e o profano, a família e a promiscuidade, a educação e a deseducação, o verdadeiro e o falso – é estar contra o único juízo de valor que é largamente aceite: o juízo de que todos os juízos são condenáveis.
Em verdes anos, e para pessoas com poucos hábitos reflexivos e de leitura, a ideia do relativismo até pode suscitar uma certo estado de liberdade e promoção da tolerância, mas torna-se verdadeiramente preocupante quando nos apercebemos que temos de fazer escolhas, que devemos fazer escolhas, e que o que mais nos caracteriza enquanto seres humanos (animais mas também racionais) é, não tanto a procura – legitima até certo ponto - da felicidade e satisfação imediata ou mediata das inclinações, mas, e essencialmente, a procura desinteressada do bem e da verdade. É isto que faz de nós seres racionais, e só quando nos apercebemos disto é que começamos, verdadeiramente, a filosofar.
Julgo que devemos reflectir em duas ideias hodiernas e que se relacionam com o estudo. A primeira é a associação que costuma fazer-se entre estudo e prazer, e a segunda é a de que devemos estudar para sermos bem sucedidos e respeitados. Parcialmente correctas, estas ideias subjazem de concepções que considero profundamente erradas. O estudo não é sinónimo de prazer e entretenimento por si só. Implica esforço, dedicação, exigência, resistência e disciplina, e só assim o estudo surte algum efeito. Também não devemos estudar para termos sucesso e sermos respeitados, e isto porque a real essência do estudo consiste, e tão somente, em ajudar-nos a viver sabiamente e bem, a termos elevado discernimento intelectual, a apurarmos os sentidos ético, crítico, estético, cívico e religioso; a sermos, no fundo, mais humanos.
Raciocinando por nós mesmos (e não memorizando de forma acéfala), compreendemos as concepções de cada pensador, reconhecemos, à luz do nosso próprio pensamento, a verdade daquilo que é sustentado por eles e só aí podemos prolongar ou refutar as suas conclusões.

Porque “uma vida não reflectida, não é, efectivamente, digna de ser vivida”. Um bem-haja a todos e até outro dia!O professor de filosofia Martinho Moura

2 Comments:

Anonymous Anonymous said...

é verdade nem tudo é relativo!!!
há sempre uma razao...
a unica duvida que não posso ter é a duvida de que duvido...
espero por si no meu blog
até ja professor

3:43 PM  
Anonymous Anonymous said...

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