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Monday, March 29, 2010

A Felicidade na Ética de Kant

Escreve Kant na Crítica da Razão Pura:

“o homem é um ser de carências na medida em que faz parte do mundo sensível e, a este respeito, a sua razão tem certamente uma missão indeclinável à luz da sensibilidade, que é a de se preocupar com o interesse da mesma e de fazer para si máximas práticas, em vista da felicidade desta vida e, se possível, também de uma vida futura”

Este parágrafo reflecte o que consideramos ser o reconhecimento de Kant de que faz parte da natureza a procura felicidade. Kant nunca negou este dado; o que ele nega é que a procura da felicidade seja base apriorista de virtude. Vejamos o argumento de Mónica Gutierres:

“- Todos os princípios práticos materiais são empíricos
- Os princípios práticos empíricos não podem ser leis práticas
- Os princípios práticos materiais são todos da mesma espécie e classificam-se sob o princípio geral da felicidade pessoal
- Logo, o princípio geral da felicidade pessoal não fornece leis práticas.”

O argumento parece claro e por isso não nos alongaremos mais nele. Ainda assim, parece que, por um lado, não conseguimos conceber a virtude senão como unida indissoluvelmente à felicidade, isto é, aquele que é justo, o santo enquanto alguém definitivamente infeliz, parece repugnar a própria noção de justiça. Por outro lado, há no raciocínio kantiano uma iniludível heterogeneidade entre moral e felicidade, pois ser-se virtuoso para se ser feliz é claramente imoral: a felicidade visada como fim de uma acção assegura-lhe a imoralidade, pois a lei única moral é a do dever pelo dever enquanto austera fórmula da obrigação moral. Não sendo possível suster-se a noção de virtude enquanto ordem que conduz à felicidade (negar-se-ia a si própria) terá então de existir – conclui Kant – um ser inteligente, omnipresente e absoluto, necessário e criador do homem - ou seja, Deus – e que concede de forma absoluta a união entre virtude e felicidade:
“Porém, visto que não estou autorizado a conceber a minha existência também como númeno num mundo inteligível, mas que tenho mesmo na lei moral um fundamento de determinação puramente intelectual da minha causalidade (no mundo sensível), não é impossível que a moralidade da intenção tenha, como causa, com a felicidade, como efeito no mundo sensível, uma conexão necessária, se não imediata, apesar de tudo mediata (por intermédio de um autor inteligível da natureza), conexão essa que, numa natureza que é simplesmente objecto dos sentidos, jamais pode ter lugar a não ser acidentalmente e não pode ser suficiente para o soberano bem”.

Deus é, assim, moralmente necessário, é uma exigência da razão prática, da prática da acção, da nossa subjectividade e que nos reconduz ao mundo do absoluto e das realidades transcendentes inacessíveis que são à razão pura/teórica. Deus, como nota Romano Gallefi em A Filosofia de Immanuel Kant, “enquanto não é absolutamente necessário efectuar-lhe a demonstração, é, ao invés, absolutamente necessário convencermo-nos de sua existência”.

1 Comments:

Blogger Valdecy Alves said...

Vc está convidad@ a ler matéria em meu blog sobre como deve ser uma pessoa ideal, conforme Aristóteles e Nietzsche formularam. Como é o ser humano atual comparado com a formulação de cada um dos filósofos? Vc se encaixa nas formulações? Ler em: www.valdecyalves.blogspot.com

12:12 PM  

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