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Friday, April 02, 2010

Belo e perturbador texto de Scruton:


"A vida, tal como nós a conhecemos, não é muito parecida com a vida de onde emergiu a nossa tradição filosófica. Platão e Sócrates eram cidadãos de uma pequena e familiar cidade-estado, com critérios de virtude e de gosto publicamente aceites, em que a classe instruída derivava a sua concepção da vida de uma única e incomparável colectânea de poesia, mas na qual outras formas de conhecimento eram raras e preciosas. O reino intelectual ainda não tinha sido dividido em territórios soberanos, e o pensamento era uma aventura que se estendia em todas as direcções, repousando maravilhado diante esses precipícios da mente que nós agora conhecemos por filosofia. Diferente dos grandes atenienses, habitamos um superpovoado mundo de estranhos, do qual os critérios de gosto praticamente desapareceram, em que a classe instruída não retém uma cultura comum e onde o saber tem sido parcelado em especialidades cada uma reivindicando o seu monopólio interesseiro contra as ondas de ideias divergentes. Nada neste mundo está fixo: a vida intelectual é uma vasta comoção, em que uma miríade de vozes se esforça para ser ouvida através do ruído. Mas na medida que aumenta a quantidade de comunicação vai diminuindo a sua qualidade; e o mais significativo sinal disto está no facto de que enunciá-lo já não é aceitável. Criticar o gosto popular convida à acusação de elitismo, e defender distinções de valor -- entre a virtude e o vício, o belo e o feio, o sagrado e o profano, o verdadeiro e o falso -- é estar contra o único juízo de valor que é largamente aceite: o juízo de que todos os juízos são condenáveis. Em tais circunstâncias a tarefa da filosofia terá que mudar. A filosofia, para Platão, subvertia as certezas de uma cultura comum e dirigia-se, através da dúvida e da admiração, ao reino da verdade. Hoje não existem certezas e nenhuma cultura comum merecedora desse nome. A dúvida é o refrão da comunicação popular, o cepticismo estende-se em todas as direcções e a filosofia ficou privada do seu ponto de partida tradicional: a crença numa comunidade estável. Uma filosofia que assenta na dúvida é contra o que ninguém acredita e convida-nos a nada acreditar. Por mais importantes que sejam os seus êxitos, na descrição da natureza e nos limites do pensar racional, tal filosofia agora arrisca-se a afastar-se da vida circundante e a trair a antiga promessa da filosofia, que é a de nos ajudar, mesmo indirectamente, a viver sabiamente e bem."

Roger Scruton in Guia para Pessoas Inteligentes

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